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Stalin nunca mais

Anda circulando pelas redes um texto sobre o “papel histórico” de Iossif Vissariónovitch Djugashvili, o José Stalin. O conteúdo do mesmo pode ser resumido de maneira muito simples: justificar as atrocidades de Stalin pelo fato de ele ser… pobre.

Sim, o dito cujo era de fato “filho de sapateiro com lavadeira criado na Geórgia”. Mas estava longe de ser o único militante russo de origem simples e proletária, pelo contrário.

Shliapnikov era metalúrgico e líder sindicalista, órfão de pai que começou a trabalhar em fábricas aos 13 anos. Bolchevique desde 1903, preso inúmeras vezes. Participou da Oposição Operária, foi obrigado a escrever uma confissão em 1930, já com o PCUS dominado pelo stalinismo. Pouco adiantou. Foi expulso do partido em 1933, preso em 1935 e executado em 1937.

Rykov nasceu de uma família de camponeses. Também órfão de pai aos 8 anos (o pai morreu de cólera). Era considerado brilhante em Matemática e nas Ciências Naturais. Bolchevique desde 1903. Entre os réus dos Processos de Moscou, foi condenado e executado, mesmo tendo colaborado inicialmente com Stalin para derrotar a Oposição de Esquerda.

Muralov também nasceu de família camponesa. Trabalhou na roça até os 17 anos e se alfabetizava durante os invernos, até que veio a se formar como Agrônomo. “Herói de Moscou”, atuou como soldado em uma unidade motorizada, tendo ocupado a estação de radiotelegrafia e outros locais estratégicos da cidade. Uniu-se a Trotsky na Oposição de Esquerda e terminou preso em 1936 e executado em 1937, sendo mais uma vítima dos Processos de Moscou.

Pavel Dybenko também era de origem camponesa. Tornou-se depois funcionário do tesouro, mas terminou demitido pelas atividades políticas, aderindo ao Partido Bolchevique em 1907. Foi expulso do partido em 1938, acusado falsamente de conspiração com os nazistas e executado.

Estavam todos, assim como muitos outros de origem operária, camponesa ou artesã, ou seja “pobres”, à frente da luta revolucionária do povo russo no começo do século passado. E nenhum deles, até onde sei, manifestou tendência a virar genocida.

É um desrespeito profundo à memória desses lutadores a peça que anda circulando por aí que atribui à pobreza de Stalin seu comportamento mostruoso, totalitário, sanguinário. O regime indefensável desse ditador abjeto fez com que valorosos revolucionários como esses que elenquei, e muitos outros, de origem humilde ou não, mas que cumpriram papeis destacados na Revolução Russa, terminassem mortos.

A geração que liderou a Revolução de 1917 pereceu muito mais nas mãos de Stalin do que dos inimigos mais óbvios e é inaceitável que alguém queira limpar as mãos de sangue desse assassino brutal com o apelo à pobreza.  No coração dos que listei, de origem humilde, assim como dos outros, que eram funcionários ou mesmo de origem mais abastada e traíram sua condição original de classe, é provável que pulsasse bem mais do que ódio e ressentimento, um senso de justiça, de generosidade e solidariedade. Que é aquilo que encontramos, como senso de comunidade, de comum, em bairros operários, em aldeias, em assentamentos, em quilombos, em favelas, quando os despossuídos ajudam uns aos outros.

Tenho uma posição bastante crítica a aspectos do bolchevismo que precedem Stalin. Por exemplo, discordo do pensamento centralista e sou da opinião de que medidas bancadas por Lenin como a direção unipessoal nas fábricas, o Taylorismo etc. drenaram a energia revolucionária e colocaram muito poder nas mãos de uma camada que, alguns anos depois, veio a se consolidar como uma burocracia pronta para fazer o serviço sujo de Stalin no varejo). Por outro lado, também não vejo como falar de mera continuidade entre o que aconteceu nos primeiros anos após a revolução e o que se sucedeu nas décadas seguintes.

Stalin não era apenas “demasiado rude”, ou portador de um “defeito bastante tolerável em nosso meio e no trato entre nós, comunistas”, como avalia Lenin em seu testamento. Stalin era justamente o indivíduo capaz de levar o já desgastado e desfigurado poder revolucionário, com enormes desvios burocráticos e centralistas à bancarrota completa, fazendo-o dar lugar a uma tirania das mais terríveis da história da humanidade. Aquela em que proletários revolucionários assinavam confissões forçadas em que admitiam “traição” como base para sua própria execução; em que artistas e cientistas foram enviados aos milhares para campos de concentração; em que mais de dois milhões de camponeses e indígenas (sim, a Sibéria era repleta de povos originários) foram desterrados. Isso não é ódio contra ricos, contra burgueses nem contra latifundiários. É ódio contra o povo, maior até do que o praticado por muitos dos ditadores oriundos das hostes dominantes. O que Stalin fez não foi vingança contra “cada porrada, cada castração moral, cada silenciamento, do velho mundo classista”, mas a reprodução e a multiplicação contra um povo que mal pôde celebrar o desaparecimento do czarismo.

Já havia cansado das tentativas de atenuar a crítica a Stalin dizendo que ele tinha “mais ódio à burguesia do que amor ao proletariado”, afinal ele parecia demonstrar ódio a qualquer um que não fossem seus burocratas marionetes. Mas ligar “pobreza” ao terror que ele implantou já é muita canalhice. Que se respeite o amor, o carinho e a partilha que encontramos em cada casa “pobre” em todo o mundo e que jamais tenhamos de novo espaço para tiranos que enchem a boca de “ditadura do proletariado” para justificar assassinato em série e genocídio. Stalin banhou em sangue, manchou de crueldade, cobriu de vergonha uma história que poderia ter sido diferente. Que não se ressuscite jamais, que sequer se cogite relativizar uma figura criminosa, indigna e execrável como esta.

Texto de Alexandre Araújo Costa

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