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A revolução também será negra ou não será

Imagem: Casa da Mãe Joana

por Luana Meyer

Vinte e cinco de julho é o  Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha.  A data — cujo principal objetivo é dar visibilidade e fortalecer a luta das mulheres negras da região — surgiu a partir de um encontro de mulheres negras de diferentes nacionalidades realizado em Santo Domingo, República Dominicana, em 1992. Elas se reuniram para discutir temas comuns à comunidade negra da Diáspora em busca de alternativas que permitissem o enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às diversas formas de discriminação que as mulheres negras sempre sofreram ao longo dos séculos. No Brasil, também comemoramos nessa mesma data,  desde 2014, o Dia Nacional de Tereza de Benguela, em homenagem à líder quilombola que viveu no século XVIII.

Todo 25 de julho passou a ser um dia de as mulheres negras da América Latina e do Caribe lembrarem da necessidade de persistir nas lutas contra as opressões das quais somos vítimas cotidianamente. Os últimos dados divulgados em pesquisas evidenciam o peso do racismo patriarcal, institucional e estrutural na dinâmica da violência que atinge as mulheres negras no Brasil. Os 49 milhões de pretas e pardas que vivem no país, segundo dados do Censo 2010 do IBGE, têm estado representadas em todos os índices de violações de direitos. O Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra a dupla face da mortalidade negra feminina, ao apresentar a série histórica de homicídios entre 2005 e 2015. Além de serem maioria entre as vítimas fatais de agressão, mulheres negras, em comparação com mulheres de outras etnias, são também as que mais morrem pelas mãos do Estado, nas “intervenções legais e operações de guerra”, que é como as operações policiais são denominadas na base de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da  Saúde, utilizada para elaboração do Atlas.

As  Mulheres  negras representam 24,5% da população brasileira. No entanto, de acordo com o Atlas da Violência 2017, 61% das mulheres vítimas de óbitos violentos na década analisada eram pretas ou pardas (27.852 em um total de 45.425). A taxa de homicídios de mulheres negras por 100 mil habitantes cresceu 22% no período, enquanto a de mulheres brancas teve uma redução de 7,4%.

Considerada somente a letalidade oficial do Estado contra mulheres em ações policiais, de 2005 a 2015 foram computadas 75 mortes por “intervenções legais ou operações de guerra”. Destas, 39 vítimas eram pretas ou pardas (52%). O número de negras mortas por agentes da lei pode ser ainda maior porque, em relação a 12 vítimas femininas, o quesito “raça/cor” consta como “ignorado”. Mulheres que, como a carioca Claudia Silva Ferreira e a paulista Luana Barbosa dos Reis, morreram pelas mãos de quem oficialmente foi pago para proteger as suas vidas.

Outro dado do Atlas comprova outro impacto da letalidade racializada nas vidas dessas mulheres, que se revela sob a forma dos assassinatos de seus filhos. De cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras, em sua maioria jovens do sexo masculino.

As diferentes formas de resistência das populações negras atuais e passadas, visíveis ou silenciadas, são uma parte fundamental do processo histórico que há de desembocar na emancipação humana. Ao hierarquizar e dividir a classe, ao intimidar, inclusive com a morte, as populações negras, a ordem do capital beneficia os seus donos, mas ao enfrentar as diversas formas de racismo, inclusive as mais disfarçadas e ao apostar na autonomia e no respeito às especificidades dos movimentos e também na integração de projetos entre os movimentos de lutas de negras e negros e demais, apostamos na sua emancipação e que o nosso socialismo terá que ser também a superação do racismo. A história do Brasil é exemplo da escravização que os povos negros foram submetidos mas também do poder da resistência da negritude. Nos referenciamos  nas Terezas de Benguelas, nas Dandaras, nas Aqueltunes, nas Luizas Mahin, nas Marianas Criolas e em tantas outras negras que foram e são silenciadas para construirmos  um projeto de revolução preta como parte fundamental da revolução no Brasil.

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