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A ignóbil superioridade dos negacionistas climáticos

"Eu não acredito em aquecimento global"

“Mas o clima já mudou antes!”, “Só estou sendo prático. Só vejo o homem influenciar o clima local…”, “Me diz como um gás que é só 0,04% da atmosfera pode fazer alguma coisa!”, “Vênus é quente por causa da pressão que é grande. Você nunca estudou a lei dos gases?”, “Você não sabia que a Antártica está ganhando massa?” E outras e outras e outras… Todos os questionamentos foram direcionadas a mim ou no YouTube ou no Twitter, por pessoas totalmente leigas ou, no máximo, com alguma formação superior em ciências exatas, mas ainda assim bem longe do instrumental necessário para poder se considerar expertise em clima.

Provavelmente são questões que parecem fazer todo sentido para muitos, mas asseguro, na verdade ocupam a interseção de espaços entre a puerilidade, a malícia e a ignorância (aliás, não quero que as pessoas simplesmente “acreditem” nessa minha afirmação, mas procurem as respostas a elas, a partir de fontes confiáveis, indicadas por mim em meu blogfanpage e canal do YouTube).

Essas e tantas outras frases que li nestes dias de intenso confronto com o negacionismo nas redes (vide meu artigo anterior) parecem carregar em si a própria definição de “superioridade ilusória”, ou aquilo que na Psicologia (thanks Caio Almendra, colega de Vírus) se conhece como “Efeito Dunning-Kruger“, por conta dos pesquisadores que o descreveram. Segundo a dupla de pesquisadores, o comportamento do indivíduo sem as competências necessárias para determinada tarefa incluiria: 1. Falhar em reconhecer sua própria falta de habilidade; 2. Falhar em reconhecer as habilidades genuínas em outras pessoas; 3. Falhar em reconhecer a extensão de sua própria incompetência; 4. Reconhecer e admitir sua própria falta de habilidade, depois que forem treinados para aquela habilidade.

Em particular as três primeiras das quatro previsões da dupla encaixam muito perfeitamente na massa que abraça o negacionismo e passa a “debater clima” com toda a autoridade do mundo. Pior, como apenas uma fração ínfima se dispõe a realmente se aprofundar no tema, estancam aí e não vão até o quarto item. Daí, imaginem como pessoas de má fé como Felício, Molion e demais negacionistas se alimentam desse comportamento… Sei que já usei essa metáfora, mas é inevitável: é como agar-agar numa placa de Petri.

Nesse contexto todo, uma das coisas mais estranhas que eu acho é que as pessoas parecem não perceber as inconsistências do negacionismo, não apenas entre o que um e outro negacionista dizem, mas muitas vezes dentro da mesma entrevista, ou até da mesma fala ou frase proferida por alguns deles (o rapaz da USP é particularmente “talentoso” na ostentação da própria incoerência). A falta de conhecimento de causa sobre o tema é, neste caso, anabolizada pela superioridade ilusória.

Por exemplo, não faz sentido a pessoa dizer que “não existe aquecimento global” e que “os dados são falsos” e logo em seguida se dedicar a “demonstrar” que o aquecimento “existe mas não é causado pelo homem”, ou “existe, mas é provocado _____”, preenchido por qualquer coisa que venha à cabeça, não importando que sejam coisas díspares e às vezes excludentes: “pelo sol”, “pelos vulcões”, “por mudanças na órbita”, etc. O aquecimento global não pode não existir e ao mesmo tempo ser causado por outra coisa que não as emissões humanas. Ou existe ou não existe. Também é flagrantemente incoerente dizer que “a NASA [ou a NOAA, etc.] falsifica os dados” e recortar um pedacinho desses mesmos dados, por exemplo de 1998 a 2013 para afirmar que “o aquecimento global parou” (o que afora os erros de metodologia, como período curto demais, escolha direcionada dos dados, etc. não é verdadeiro nem escolhendo a dedo esse intervalo). Ou os dados servem ou não servem. Não é possível que tudo antes de 1997 ou de 2014 em diante seja simplesmente descartado porque não convém…

E o que dizer quando a mesma pessoa aforma que “não é possível definir um nível do mar”, mas noutro momento diz que “o nível do mar [a mesma variável impossível de ser definida] não está subindo porque no local X, a marca de fulano blá blá blá…”? Ora, ou se pode ou não se pode definir a variável “nível médio do mar”. Também me é embaraçoso (sim, bate em mim a famosa “vergonha alheia”) quando um mesmo indivíduo diz que “não existe efeito estufa” (mentira) e depois afirma que “é o vapor d’água o principal gás de efeito estufa e não o CO2” (meia-verdade) e depois que “a quantidade de CO2 na atmosfera é muito pequena para causar efeito estufa” (também mentira, mas que admite a existência do fenômeno negado há pouco. É duplamente penoso, pois ou o fenômeno (efeito estufa) existe ou não existe e ou o CO2 é um gás de efeito estufa (independente da sua abundância) ou não.

Por uma dessas contingências da vida, por ser inusitado e talvez sob influência do título do artigo (que, em tradução livre, vira algo como “Não qualificados e inconscientes disso: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência levam a auto-avaliações imodestas”), a pesquisa de Justin Kruger e David Dunning terminou recebendo o prêmio IgNobel. Este, no afã de fazer o meio acadêmico rir um pouco de si mesmo, agracia tanto trabalhos sérios (mas estranhos) quanto besteirol publicado na literatura, mas talvez tenham pesado a mão ao entrega-lo a Dunning e Kruger. Afinal, ignóbil mesmo (e desonesto, canalha e nocivo) é o desserviço que negacionistas prestam, conforme bem apontado por Maurício Tuffani em artigo recente no “Direto da Ciência”, escrito com uma classe e elegância que não tenho…

por Alexandre Araújo

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