Novidades

Lutando por Justiça Climática

por Phil Hearse*, publicado no The Bullet e traduzido por Thiago Ávila.

11/09/2017 – Publicado em Subverta.org 

 

Mentiras, malditas mentiras e estatísticas, certo? Nem sempre – às vezes estatísticas dramatizam a realidade social de uma forma gráfica. Um ano antes das enchentes devastadoras na Índia, Bangladesh e Texas, um discreto relatório da ONU revelou dados extraordinários sobre os efeitos das mudanças climáticas no mundo. Catástrofes relacionadas ao clima já não são um perigo adicional para os pobres do mundo, mas um fator central na opressão e pobreza. E isso eventualmente levará a um efeito cascata de milhões de refugiados climáticos, um processo que já está se iniciando.

Isso não é reconhecido universalmente. Um site socialista de grande visitação publicou recentemente um artigo sobre como os pobres foram deixados sozinhos para lidar com os estragos das inundações em Houston mas que em nenhum momento sequer menciona “mudanças climáticas” ou “aquecimento global”.

 

Desastres relacionados com o clima

O relatório da ONU e acontecimentos mundiais este ano apontam a um número crescente de conclusões evidentes, apesar delas não serem aceitas pelos negacionistas climáticos da direita:

  • O número e extensão das catástrofes relacionadas ao clima está subindo vertiginosamente, assim como a quantidade de pessoas afetadas – veja as alarmantes figuras abaixo. Obviamente, isto é causado pelo aquecimento global, elevando o nível dos oceanos e causando tempestades mais severas.
  • Catástrofes relacionadas ao clima atingiram aos pobres de maneira desproporcional, tanto em relação aos países atingidos como em relação às pessoas atingidas dentro dos próprios países. Eventos de escala similar tiveram efeitos consideravelmente mais danosos em países mais pobres.
  • Enquanto o maior número de mortes em países pobres vem de inundações e tempestades, em países mais ricos as pessoas morrem por incêndios florestais e ondas de calor.
  • A parte do mundo mais afetada por tempestades e inundações é a Ásia. É lá que o nível das chuvas é mais alto, mas também é onde existe uma vasta concentração de pessoas em localizações expostas com pouca infraestrutura ou serviços de resgate para os defender. No entanto, o número de comunidades atingidas por inundações e tempestades na África e na América Latina também está crescendo. [Nos últimos três anos houve inundações massivas em Uganda e Malauí, enquanto na América do Sul, por exemplo, uma média de 560 mil pessoas foram afetadas pelas enchentes entre 1995 e 2004. Na década seguinte (2005 – 2014) este número disparou para 2,2 milhões de pessoas (quase quatro vezes mais). Nos primeiros oito meses de 2015, outras 820 mil pessoas foram afetadas por enchentes na região.]

O documento da ONU, Custo Humano de Desastres Relacionados ao Clima (Human Cost of Weather Relates Disasters), que cobre o período de 1995-2015, mostra no total 6,457 desastres relacionados ao clima registrados no mundo entre estas datas. Estes eventos ceifaram aproximadamente 606 mil vidas, uma média de 30 mil por ano, com um adicional de 4,1 bilhões de pessoas feridas, que precisaram de assistência de emergência ou que perderam suas casas.

Em outras palavras, a maioria da população do mundo sofreu consequências negativas severas como resultado de desastres relacionados ao clima. Das 606 mil mortes, 202 mil são relacionadas a tempestades e 157 mil por conta de inundações.

Desastres climáticos intensificam e prolongam a pobreza existente, especialmente destruindo colheitas e tornando a produção de alimentos mais difícil ou impossível. Inundações recorrentes estão tornando áreas densamente povoadas em regiões inabitáveis.

Na parte rural da Índia, o relatório explica, crianças em moradias expostas a inundações recorrentes são mais desnutridas e abaixo do peso que aquelas que vivem em regiões não inundadas. Crianças expostas a inundações em seu primeiro ano de vida também sofrem dos mais altos índices de desnutrição crônica devido à perda da produção de alimentos e interrupção de suprimentos de comida.

Um relatório de Bengala do Oeste sobre as inundações recentes na Índia/Bangladesh demonstra como os países mais pobres e menos desenvolvidos falham em lidar com a catástrofe climática. Aditi Roy Ghatak diz:

  • “Comparações são amplamente redundantes diante de uma tragédia tão aterradora, mas a discrepância entre a quantidade de vidas perdidas aqui e nos Estados Unidos nos diz algo. Os países em desenvolvimento permanecem profundamente expostos face ao clima extremo, sendo que prevemos que tal clima extremo se torne cada vez mais frequente com as mudanças climáticas. Como coincidência destes dois desastres, temos as avaliações que chegam até o próprio painel de ciência do clima da ONU, de que as mudanças climáticas serão sentidas nos países pobres de forma desproporcional.

Isto acontece por muitas razões, mas em sua essência trata-se de pobreza e governança. A Autoridade Nacional para Gerenciamento de Desastres da índia possui um orçamento de 100 milhões de dólares para 2016-2017. Nos Estados Unidos, um país com um quarto da população da Índia, o orçamento da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências tinha um orçamento de 15,5 bilhões de dólares para 2016. No sudeste asiático, tempestades matam regularmente dezenas de pessoas. Quando vem uma inundação grande, as pessoas morrem aos milhares.”

O artigo explica como a infraestrutura local de água é tragicamente inadequada, assim como a resposta de governos locais e nacionais. Um professor local explica:

  • “Havia poucos barcos de resgate, não havia água nos tanques e poucas evidências de equipes de gerenciamento de desastres. Apenas ONG´s vinham com comida, remédios e outros materiais de ajuda humanitária.”

 

Inabitável

As inundações recorrentes estão tornando algumas das áreas mais pobres inabitáveis. Em nenhum lugar isto é mais verdade que em Bangladesh. De acordo com Gardiner Harris:

  • “O delta dos rios do mundo são particularmente vulneráveis diante dos efeitos da elevação do nível do mar, e cidades mais ricas como Londres, Veneza e Nova Orleans também possuem futuros incertos. Mas são os países mais pobres que serão mais fortemente atingidos, e nenhum mais que Bangladesh, uma das nações do mundo mais densamente povoadas. No delta do rio Ganges, formato por 230 grandes rios e afluentes, 160 milhões de pessoas vivem em um local com um quinto do tamanho da França e plano como os pães servidos a cada refeição no país.”

Partes de Bangladesh já são inabitáveis e é muito tarde para reverter este quadro.

  • “Apesar de Bangladesh ter contribuído pouco com a poluição atmosférica da indústria, outros tipos de degradação ambiental o deixaram especialmente vulnerável.
  • Bangladesh conta quase que inteiramente com água de lençóis freáticos para beber porque os rios são poluídos. O bombeamento resultante disso faz com que a terra se assente, então, enquanto o nível dos oceanos se eleva, as cidades de Bangladesh estão afundando, aumentando os riscos de inundação. Diques de contenção precários no mar adiam o problema.
  •  Os cientistas do clima no país e políticos concordam que em 2050, o aumento do nível dos oceanos vai inundar 17 porcento do território e desalojar cerca de 18 milhões de pessoas.
  •  Cientistas no país afirmam que o povo de Bangladesh já está começando a se mover para longe das vilas mais baixas nos deltas dos rios da Baía de Bengala. As pessoas se movem por muitas razões, e a urbanização está crescendo no sul asiático, mas as marés crescentes são um grande fator para isso. O grupo de pesquisa do Dr. Rahman estima a partir de pequenas pesquisas que 1,5 milhões dos 5 milhões de moradores de favelas em Dhaka, a capital do país, saíram de seus vilarejos próximos à Baía de Bengala.”

Eles ainda acrescentam que “os oceanos elevados estão gradativamente entrando nos rios, tornando água doce em salobra. Mesmo inundações cotidianas podem começar a depositar sal na terra, podendo torna-la seca”.

A crise no delta do rio Ganges terá grandes efeitos sociais. É estimado que, seguindo esta elevação no nível dos oceanos, 50 milhões de pessoas de Bangladesh deixarão o país até 2050. Em outras palavras, elas se tornarão refugiadas climáticas.

 

Temperatura escaldante e incêndios florestais

Quase todos os turistas de centros de veraneio no Mediterrâneo como Espanha, Portugal, Itália e o sul da França afirmam que as temperaturas tornaram impossível ficar a maior parte do dia fora de uma sombra. Quase todo o Mar Mediterrâneo viu temperaturas acima de 40 graus neste ano, acompanhadas de diversos incêndios florestais.

Este ano (2017) houve incêndios particularmente desastrosos em Portugal, onde 70 pessoas foram mortas por um incêndio gigante no centro do país em junho. De fato, nos países mais desenvolvidos há muito mais mortes por conta de incêndios florestais que por inundações.

Chris Harris reporta que os incêndios florestais dispararam em 2017:

  • “O número de incêndios florestais na Europa disparou neste ano, de acordo com dados obtidos pela Euronews, afetando uma área próxima ao dobro do tamanho de Luxemburgo. Houve 1.068 focos em 2017 – um grande crescimento comparado à média anual de 404 focos nos últimos oito anos.

Especialistas culparam a mudança climática pelo aumento, dizendo que por conta das mudanças alongou a temporada de incêndios e aumentou a frequência dos focos. Eles alertam que os incêndios florestais na Europa vão se intensificar no futuro e atingir novas áreas.”

A Europa está longe de ser a única região afetada por incêndios florestais. No momento da escrita deste artigo (setembro de 2017), foi declarado estado de emergência em Los Angeles e um céu de fumaça negra cobre uma grande parte da Califórnia (dados recentes falam até de mais de 90 focos de incêndio foram de controle no Canadá, de acordo com o Sistema Canadense de Informação sobre Incêndios Florestais). O motivo dos incêndios, de acordo com artigo do jornalista local Patrick May, é a alta temperatura:

  • “Temperaturas elevadíssimas atingiram a região de Bay Area neste final de semana de forma desproporcional, alcançando ou superando recordes desde Santa Rosa a Livermore, deixando San Francisco e a costa como relativos oásis do calor que atingiu o resto da região no domingo… Após Santa Rosa atingir seu recorde histórico de 1988 este sábado, assim como regiões no Tri-Valley. No domingo Santa Rosa quase atingiu a mesma temperatura recorde, enquanto Livermore quase alcançou a alta histórica do ano de 1944.”

Obviamente, as populações pobres são normalmente as vítimas das mudanças climáticas em países avançados também. Isto foi amplamente ilustrado no furacão Katrina de 2005 que inundou Nova Orleans. O mesmo aconteceu durante o furacão Harvey em Houston e áreas próximas. Como Wen Stephenson colocou:

  • “Décadas de negligência, desigualdade e desinvestimento – isso para não falar do inexistente desenvolvimento e a falta de planejamento contra inundações, que se aproximam de uma cumplicidade criminosa – significaram que a população de Houston de todas as classes, mas principalmente as comunidades mais vulneráveis, primariamente comunidades negras e pardas, foram abandonadas sem apoio.”

Isso nos leva a uma evidente conclusão da estratégia. Precisamos lutar por uma estratégia internacional realista para limitar as mudanças climáticas, mas também precisamos lutar pelas vítimas das mudanças climáticas e refugiados, assim como prevenir que milhões mais se tornem vítimas e refugiados.

Como Wen Stephenson diz:

  • “Assim como a catástrofe em Houston não deve ser vista isoladamente, como mais um mero exemplo de eventos de clima extremo, é tempo de reconhecer que nossa realidade climática mudou – e é o momento da luta climática mudar com ela. Quero dizer a mudança de um mundo no qual lutamos para prevenir as catástrofes climáticas para o mundo onde vivemos hoje, onde somos forçados a viver, ou lutar para viver – sendo que os que mais lutam são os pobres e marginalizados. A medida em que a emergência climática converge com a emergência na política nacional, nada ilustra a mudança de forma mais evidente, nos Estados Unidos, que o caso de Houston. As lutas por igualdade e democracia, tão imediatas e urgentes nestes tempos obscuros, não estão separadas da luta por justiça climática – porque esta nunca será alcançada sem as primeiras.”

*Phil Hearse é editor de www.marxsite.com, onde este artigo foi publicado pela primeira vez. Também foi publicado pelo Left Unity e pelo Socialist Project.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: