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Delfim e o Velho Monte de tragédia e farsa

Por Alexandre Araújo Costa

Delfim Netto e Belo Monte: dois nomes histórica e estreitamente vinculados à ditadura militar-empresarial que se instalou com o golpe de 1964. Entre 1969 e 1974, o primeiro foi ministro da fazenda. A partir do final da década de 1970, a segunda emergiu como parte importante do projeto de “integração nacional” do regime, que incluía outras hidrelétricas, extrativismo mineral, rodovias e expansão da fronteira agropecuária num violento processo de “colonização interna” atacando povos indígenas, vários deles até então isolados.

Eis que quatro décadas depois, essas duas peças de um quebra-cabeça genocida aparecem conectadas novamente. Mais caudaloso do que o Xingu é o rio de propinas que, segundo as investigações da Lava-Jato, turbinaram a construção do Belo Monstro: R$ 60 milhões para as máquinas do (P)MDB e do PT e R$ 15 milhões para empresas de alguma maneira ligadas a Delfim.

Não pode haver meias palavras sobre o que temos. Belo Monte é um crime contra rio, floresta e povos indígenas e ribeirinhos. Cometido à revelia de toda a resistência das comunidades locais e de todos os questionamentos de impactos à biodiversidade e à hidrologia regionais, viabilidade técnica pela intermitência das vazões afluentes e até mesmo sobre emissões de metano que contrariam a propaganda de “energia de baixo carbono”. Nesse sentido, tragédia. Cometido para beneficiar empreiteiras e assegurar propina para aliados do governo e não porque “não havia alternativa”. Nesse sentido, farsa.

Estamos sob um golpe, feito sob medida para acelerar uma agenda reacionária e antipopular, concentradora de riquezas num nível brutal; uma agenda de encarceramento e violência contra a classe trabalhadora, as mulheres, as LGBTs; uma agenda também anti-ambiental, anti-indígena, anti-floresta, anti-clima.

Essa agenda certamente inclui, de forma central, um ataque ao PT e especialmente suas principais figuras públicas: Dilma, vergonhosamente deposta pelo parlamento mais podre desde o início da Nova República, e Lula, cujo processo de julgamento e condenação é de uma partidarização que não fosse real pareceria achincalho.

Mas uma unidade nas ruas contra o golpe não poderá vir permeada de amnésia e silêncio por parte de uns (deveria, pelo contrário, trazer reflexões e autocrítica da parte de outros).

Quando Sonia Guajajara lembrou, no debate de pré-candidaturas do PSOL, a brutalidade que foi a imposição do projeto pelos governos petistas (“diziam que não iriam enfiar Belo Monte goela abaixo dos povos indígenas, mas sempre vinham com mais e mais ‘estudos’ para defender a obra”), fica nítido que não podemos confundir a solidariedade resoluta, sem vacilação, com uma amnésia condescendente.

É preciso traçar uma linha muito bem definida: é hora de deter o golpe, é hora de conter a série de ataques a direitos, é hora de evitar a escalada da direita, mas ao mesmo tempo não se pode esquecer onde queremos e precisamos chegar.

A crítica às alianças políticas e econômicas da velha esquerda permanece atual. No entanto, há que se ir além. É preciso superar o próprio desenvolvimentismo, a ilusão da inclusão via consumo a partir de uma lógica de crescimento econômico cada vez mais predatória, em geral encoberta pelo argumento – que de raso passa a cínico – de “emprego e renda”. E um novo pensamento, radicalmente ecológico, precisa ser incorporado ao debate, para pensar diferente sobre energia, produção agrícola e petróleo. Porque o buraco em que o capitalismo nos enfiou é mesmo gigantesco: da largura de Belo Monte e da profundidade do pré-sal.

Até para que a esquerda brasileira possa vir de fato a se reerguer, não podemos nos dar ao luxo de simplesmente canalizarmos a potência de indígenas, sem-teto, mulheres, LGBTs, juventudes periféricas, negros e negras, trabalhadores e trabalhadoras, estudantes e todo mundo que luta para repetirmos o que já foi, em seu tempo, ao mesmo tempo farsa e tragédia.

Belo Monte Nunca Mais!

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