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A ameaça fascista

por Renan Ferreira

Vivemos tempos difíceis para nós que somos defensores da total emancipação humana. A crise econômica que se abateu sobre nós é no fundo uma crise de civilização e como toda crise, tenta ser resolvida por grupos de interesses distintos que se degladiam entre si. O último período da história econômica, onde o perigo do exemplo soviético desapareceu de repente e o neoliberalismo reinou supremo atingiu níveis sem precedentes de acumulação de riquezas e com concentração talvez só comparável ao início da revolução industrial, antes de os trabalhadores aprenderem a se organizar.

Quando o mundo entra em crise e os gigantes econômicos querem seguir aumentando sua taxa de lucro, a riqueza que flui para suas estatísticas é aquela retirada dos direitos sociais: aumenta a fatia do PIB para o nebuloso “pagamento de dívidas” vindo das fatias que antes iam para educação, saúde e programas sociais criados no período de abundância para mitigar a pobreza fruto da intensidade da própria atividade geradora de tal abundância. As novas relações de trabalho, mais flexíveis para o empregador atomiza a relação com o trabalhador, atacando suas referências coletivas e meios de se proteger, como os sindicatos e as leis trabalhistas. O trabalhador, já alienado de seu trabalho se aliena de sua própria classe e se vê não mais como um trabalhador que vende sua força de trabalho em troca de subsistência, mas sim como um colaborador cuja família é a empresa que vai cuidar dele do melhor jeito que ela conseguir. Para essas pessoas a desigualdade é natural e o esforço é o que faz uma pessoa ter mais que a outra. Se abala o conceito de fraternidade.

Quando os ganhos do período de bonança são perdidos, resta a essas pessoas desamparadas e desprovidas de meios de se defender o ódio e a adesão aos projetos salvadores que propõem sua família empresa e sua fonte de informações (grandes mídias em geral). No nosso caso ironicamente quem recebeu o ódio por destruir a economia foi justamente quem melhorou as condições tanto dos mais pobres quanto, principalmente, dos mais ricos: o PT e Lula. O ódio no entanto é um ódio à esquerda em geral e todos os avanços sociais conquistados, como o da maior liberdade de existência para a população LGBT.

Neste caldo surge um ator inédito em nossa geração aqui no Brasil que responde aos anseios tanto das pessoas que se sentiram traídas pela esquerda, quanto das defensoras do patriarcado que se sentem ameaçadas pelas suas conquistas: o fascismo.

A concertação de projetos de poder hoje está caótica com muitos projetos disputando entre si para dar a sua solução para a crise e com isso ganhar a hegemonia política do próximo período histórico (então sendo quem dá as cartas do jogo econômico). A batalha que está acontecendo se manifestará nas próximas eleições e a força que cada projeto conseguir em 2018 ditará a força que o mesmo terá em 2019 e além. Por isso nós devemos gastar cada neurônio e cada suor nesse processo e trabalhar para reorganizar e fortalecer as esquerdas e conquistar a maior parcela possível da população para um projeto de sociedade baseado na emancipação da alma e do corpo humano e de novas formas de relação com a natureza. Mas não podemos fechar os olhos para o fascismo e o perigo mortal que ele traz consigo. Muito se tem falado nesse novo ator da política nacional, embora se tenha tão pouca nitidez de o que ele seja ou o que ele represente. Algumas pessoas perigosamente negligenciam o perigo fascista por ele não ser ainda muito palpável e ter pouca força política. Outras estão em um nível tal de alarmismo que o enxergam em todos os lugares.

Um ponto central é entender que o fascismo é a antítese do comunismo. Assim sendo, é chave entender que fascismo é um movimento de massas. Ele não é uma força oculta, não se esconde nas sombras. Ele domina as ruas, ganha os corações dos trabalhadores e nos enxota de nosso próprio espaço com nossa própria base.

Se hoje eles são uma “força oculta”, praticamente restrita à Internet e alguns grupos isolados, é porque ainda não têm força para ser quem são, tal como nós que somos a insurreição da classe trabalhadora, mas estamos a batalha por direitos por dentro do Estado de alguns setores da classe média e servidores públicos e alguma parcela dos espoliados como indígenas, sem tetos e sem terras.

Eles disputarem nossa base e nossos espaços os torna nossos adversários diretos mais do que qualquer outro, porém não é isso que os torna perigosos. Os dois elementos que mais tornam o fascismo um perigo exorbitante são tanto eles terem na violência um instrumento político (o que os faz tomarem ações violentas contra nossos corpos, nossas manifestações e nossos prédios) quanto eles terem no ódio à esquerda uma de suas principais bandeiras agitativas (o que alimenta e faz crescer tal ódio no inconsciente coletivo, tanto criando resistência à nós e nossas ideias quando aumentando as chances de ataques de “lobos solitários”, pessoas não organizadas que cometem atentados espontaneamente movidos por uma noção de justiçamento, heroísmo e desejo de ser mártir de uma causa).

Aqui vale o destaque para o divisor de águas que representou a morte de Marielle e Anderson. Muitos lutadores são assassinados por razões políticas todos os anos em nosso país, alguns notórios. Mas a morte de Marielle representa um divisor de águas por várias razões. A começar, os lutadores mortos são mortos em sua maioria por capangas de oligarcas reacionários por razões muito diretas de interesse pessoal, como estar sendo denunciado, ter suas terras ocupadas, ver o acesso ilegal a terras ameaçado seja para grilagem, seja para derrubar madeira, ou outras razões econômicas. Marielle representa muito mais do que apenas uma área de luta, ela é um tipo raro de figura pública da esquerda que representa o andar mais baixo da população pauperizada: favelada, negra, LGBT, mulher e dava visibilidade à essas populações, além de ser uma inspiração para elas levantarem sua voz, uma inspiração socialista para a espinha da classe trabalhadora do país, ela era uma figura em ascensão e é uma figura nacional. Marielle era vereadora, teoricamente blindada pelo estado e com licença para militar e denunciar, a morte dela é uma demonstração grande de vulnerabilidade estendida a todas as pessoas que lutam, potencialmente estimulando a sanha dos sedentos por sangue e facilitando a escolha política de quem tem o assassinato como melhor opção para seus interesses. Por fim, mas não menos importante, a campanha pela honra dela foi a primeira derrota sofrida pelos fomentadores de ódio e de fake news, além de ter lançado a esquerda em peso para a arena da comunicação virtual.

Tendo isso em mente, é muito importante também entender o que não é fascismo. Existem diversos espectros ideológicos no universo da direita e um deles é muitas vezes confundido com o fascismo, o reacionarismo. Os reacionários tal qual os fascistas, exaltam valores militares como a ordem, a hierarquia e principalmente, têm ódio, muito ódio. Porém uma diferença é que o ódio pelos valores liberais (liberdade e fortalecimento do indivíduo contra a opressão do Estado e da maioria) é um ódio ainda mais profundo e o ódio à esquerda na verdade é um ódio ao povo e aos pobres. Assim sendo, o setor reacionário da política jamais será de massas, ao contrário preferindo confiar nas forças militares para cuidarem da ordem e jogar o povo pobre para as fardas e/ou para as Igrejas do que para as ruas e comícios.

A cúpula do Exército não é e nunca será fascista, assim como nem na Alemanha nazista o foi. Em países como o Brasil e a Alemanha (Prússia), esses altos oficiais estão intimamente ligados às oligarquias rurais, historicamente a vanguarda do movimento reacionário. A intervenção militar no Rio não é um movimento em prol do fascismo e sim de uma aliança de conservadores e reacionários para a estabilização dos governos estadual e nacional (o primeiro fortalece o segundo, que é o centro de tal aliança).
A Marinha e Aeronáutica têm ethos ainda mais “brandos”, os primeiros, ligados à uma burguesia menos presa à terra, está mais para conservador, os segundo chegam mais próximos de valores liberais.

Dentro do seio das “vanguardas burguesas” (seus setores mais dinâmicos, com mais poder e mais influentes politicamente) o fascismo é um estranho que pode ser usado para bater na esquerda, porém tal qual o PT, não tem sua genética e é como cachorro feroz que deve ser mantido na coleira pois se se soltar é ingovernável.

Por fim na Polícia Militar o ethos é conservador, com muito espaço para o reacionarismo. A guerra às drogas inseriu na espinha da cultura policial valores de ódio ao pobre que vão da cúpula aos praças, além, óbvio, de os qualificar para a ação direta. A PM é uma força fisiológica e isso a afasta da política, mas o amplo espaço em termos culturais para o crescimento do fascismo (especialmente com a candidatura do “Mito”, Bolsonaro) faz desse setor da sociedade extremamente qualificada para a destruição e repressão um setor “pronto” para ser incorporado pelas fileiras orgânicas do fascismo assim que estas estejam mais maduras.

Nos encaminhando para o final do texto, temos que entender também que por mais que Bolsonaro seja a figura pública do fascismo e encarne a imagem do grande líder mítico, aparentemente ele não organiza organicamente o fascismo e parece mais preocupado com questões meramente eleitorais do que com a disputa real da sociedade. Portanto Bolsonaro fomenta o fascismo, mas o grande perigo fascista não é ele e sim a militância orgânica.

Hoje o fascismo é atomizado em núcleos espalhados pelo Brasil. Aparentemente a região de mais densidade militante é o Sul (Santa Catarina e Paraná), mas Niterói é também um de seus núcleos dinâmicos tendo inclusive eleito um vereador.

Mas essas eleições, especialmente a nacional, prometem “ligar os átomos”. 2018 parece ser um ano que vai nacionalizar, profissionalizar (no sentido de amadurecimento) e dar maior qualidade organizativa aos núcleos fascistas que trocarão experiências entre si e se articularão em outro patamar, prontos para sair do armário virtual em 2019.
Bolsonaro vai ter um papel importante a depender de suas escolhas. Se ele ceder demasiadamente para os marketeiros e trocar a roupagem de radical por uma mais liberal ele tem ainda mais chances de ir para o segundo turno (embora não ganhe em nenhum dos cenários viáveis). Porém se ele radicalizar vai trocar alcance e quantidade de votos por devoção dos seus e isso irá energizar os núcleos fascistas tanto em termos de gana de militar quanto de candidatos a novos militantes.

Não estamos em guerra civil, o fascismo não é uma força que hoje esteja no centro da política nacional e as próprias vanguardas das classes dominantes irão construir outras opções políticas, mas não podemos nos descuidar. Há perigo de ataques fascistas durante a eleição tanto às nossas sedes quanto à nossa militância na rua. Uma escalada do fascismo hoje poderia descambar facilmente para um rápido massacre generalizado que acabaria com muitos dos nossos antes de termos a chance de nos organizar devido ao profissionalismo e experiência dos grupos paramilitares já estabelecidos e ao “livre acesso” a armamentos dos mais diversos. Temos também que nos fortalecer para o combate à partir de 2019.

Neste sentido precisamos tanto animar espaços de trocas e aprendizagens (fomentando cursos, debates, palestras e conversas ampliadas visando nos dar uma maior noção de o que é o fascismo brasileiro contemporâneo e nos ensinar a se defender física, política e midiaticamente), quanto articular e fortalecer relações com diferentes atores políticos e, principalmente, sociais para a criação e fomento de uma frente antifascista ampla e efetiva. Duas considerações são um, temos uma função imediata, que é a elaboração de procedimentos de segurança tanto para nossas sedes e comitês de campanha quanto para nossa militância na rua, especialmente ao fazer campanha em “áreas de risco” como Icaraí. E dois, uma frente antifascista que se preste a ter função meramente eleitoral é uma frente antifascista que ou não sabe o que é fascismo ou está menosprezando os embriões que aí estão. Não tem como construir uma frente séria antes de terminadas as eleições primeiro pela condição objetiva de falta de pernas, segundo porque é muito mais efetivo construir a frente depois que as frações da esquerda estiverem já minimamente mais reorganizadas e tivermos uma melhor leitura de quem é quem e da própria força alcançada pelo fascismo em nosso país, além de saber qual fração da burguesia sairá vitoriosa do embate, com que força e qual o grau de ameaça aos direitos democráticos conquistados pela classe trabalhadora até o momento.

Não passarão!

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