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Construindo uma alternativa de transformação no Brasil e no Mundo

Por Thiago Ávila* e Sabrina Fernandes**

 

“Se é tarefa de revolucionários do nosso tempo acabar com a exploração, as opressões e a destruição do planeta para construir o Bem Viver, precisamos acrescentar a essa estratégia os desafios próprios também desse momento no Brasil: a resistência democrática e a consolidação de uma nova práxis criativa e com mentalidade servidora que aproxime nossas ideias e nossas ações dos territórios nas cidades, no campo e nos biomas.”

 

A grande tarefa histórica de nossa geração

A sociedade do século 21 se encontra diante de um grande desafio histórico. Coube a nós lutar a grande batalha de nosso tempo: enfrentar um sistema que, com uma sede insaciável de lucro e acumulação, utiliza diversos mecanismos para explorar as pessoas, oprimir povos e setores sociais e ainda destruir a Natureza colocando em risco a própria vida na Terra. Enfrentar o capital para construir, em seu lugar, uma nova sociedade do Bem Viver é o principal desafio de nossa geração.

Mas apenas compreender essa missão e onde se quer chegar não basta para lidarmos com a dureza da situação atual. Forças do atraso, com violentos discursos conservadores e até neofascistas, vão ganhando poder no mundo e conseguindo vitórias impressionantes, como no caso do Brasil, e colocando em risco regimes democráticos já limitados e tentando inviabilizar qualquer caminho de mudanças que beneficiem o conjunto da humanidade e Natureza. Compreender esse fenômeno e impedir o avanço dessas forças de destruição através de uma ampla e variada resistência democrática é fundamental, pois já está evidente no mundo que a hegemonia destes setores significa a intensificação da exploração, das opressões e da destruição do planeta, ou seja, o caminho oposto ao da sociedade do Bem Viver.

Lutar a grande batalha de nosso tempo requer uma severa autocrítica do que foi feito em nome da transformação do mundo até hoje. Como aprender com os erros do passado para perceber atitudes individuais e coletivas que se opõem ao modelo de sociedade que queremos é fundamental para que consigamos assumir uma nova postura compatível com nossos desafios e que reflita desde já a sociedade do futuro e esse novo horizonte estratégico que passamos a construir coletivamente. Se a análise concreta da situação é avassaladora para a moral e a autoestima de quem não se conforma com as injustiças do mundo, que nossa força venha a partir do imenso potencial transformador dessa análise franca, aliada a uma reorientação estratégica de organização que tem o poder de realmente transformar as coisas. E isso é altamente inspirador e nos motiva a agir.

 

A soma de todas as crises

A encruzilhada onde nos situamos possui raízes históricas profundas que interligam tudo. Do desenvolvimento das forças produtivas, às configurações das classes sociais, aos modelos dos estados nacionais, aos processos de colonização, à constituição da sociedade patriarcal, à globalização através do mercado, entre outros processos, que assumem características ainda mais complexas com a financeirização da vida, o esgotamento ambiental e a grande revolução tecnológica que experimentamos.

O ser humano é a espécie mais contraditória que existe: conseguimos romper barreiras impensáveis antes como ir para o espaço ou produzir reações subatômicas, mas até hoje não conseguimos garantir as condições mínimas de vida para uma parcela enorme da humanidade. Batemos recordes de produção de alimentos enquanto, por dia, 24 mil pessoas morrem vítimas da fome[i] e celebramos conquistas de crescimento econômico exponencial nas bolsas e nas moedas virtuais enquanto quase um bilhão de pessoas não tem condições sequer de pagar uma refeição e vive em subnutrição. Automatizamos parques industriais inteiros com robôs de última geração, mas abandonamos à própria sorte todo um exército de trabalhadores após anos de precarização, superexploração, adoecimento físico e mental e, agora, desemprego que os confinam aos bolsões de pobreza nas periferias de cidades insustentáveis. Somos a espécie de conquistas fantásticas e, ao mesmo tempo, da pequenez ao submeter essas conquistas sempre a uma lógica de dominação, explorando inclusive outros animais como se seu propósito de vida estivesse em servir aos nossos interesses. Tudo isso ocorre em um sistema desigual que impede um objetivo maior de emancipação e qualidade de vida. Uma pequena casta se beneficia de tudo isso, com 47 pessoas concentrando sozinhas mais renda e riqueza que 3,7 bilhões de pessoas no mundo[ii]. Enquanto menos de 1% usufrui as benesses desse sistema de injustiças, todas as 99% restantes tentam acompanhar o ritmo das mudanças para não saírem do mercado e não serem a próxima vítima dessa máquina de moer gente a partir da exploração.

As mazelas desse sistema de injustiças se intensificam ainda mais e assumem um caráter de opressão maior a depender do seu gênero, raça, orientação sexual, nacionalidade ou outras questões. As opressões se cruzam de acordo com as relações de dominação humana: intra-espécie e sobre outras espécies. Tudo está interligado: da mulher vítima de violência sexual no Brasil à que é morta por apedrejamento ao desafiar dogmas religiosos na Arábia Saudita à que, em Londres, recebe salário menor que seu colega homem para exercer a mesma função. Do jovem negro pobre amarrado ao poste no Rio de Janeiro, ao que é espancado por neonazistas no Hungria, ao que é escravo de um garimpo ilegal em Serra Leoa, ao que é morto pela polícia por “parecer suspeito” em Ferguson, nos Estados Unidos. Do ancião guarani-kaiowá assassinado por pistoleiros do latifúndio agropecuarista no Mato Grosso do Sul, à indígena lakota presa na resistência contra o oleoduto em Standing Rock, ao estudante maori lutando por verdade e justiça na Oceania. Tudo está interligado. Da mãe síria que reza para que seus filhos não sejam vítimas do pequeno barco prestes a afundar no Mediterrâneo a caminho para a Europa, do guatemalteco que luta contra a alucinação e a desidratação que podem o levar à morte na travessia do deserto da fronteira sul dos Estados Unidos, ao jovem palestino assassinado por um franco-atirador em uma marcha pacífica reivindicando direitos e até a família venezuelana que teve seu abrigo e suas roupas queimadas por turbas enfurecidas de brasileiros que não aceitam acolher refugiados em suas cidades amazônicas. Essa sociedade opressora demonstra que somente acabar com a exploração a partir do trabalho (que foi a missão predominante assumida por anticapitalistas de gerações anteriores) não é suficiente para alcançar a sociedade do Bem Viver. Ela precisa ter também o enfrentamento às opressões como fator central, e garantir que a emancipação seja para todo mundo, ou nunca se consolidará verdadeiramente.

Assim como não existe Bem Viver onde existe exploração ou opressão, tampouco ele existirá mediante um desastre ambiental planetário. A humanidade levou nosso planeta a um marco histórico: em consequência da ação humana predatória desde a Revolução Industrial atingimos uma nova era geológica, conhecido como antropoceno ou capitaloceno. Essa nova era é caracterizada por uma série de problemas ambientais, tendo como principal deles o aquecimento global. Estudos mais recentes estimam que a cada um grau de elevação da temperatura da Terra cerca de um bilhão de pessoas morrerão vítimas de seus efeitos, que atingem sempre com mais força os países e as populações mais pobres, principalmente no Sul Global. Tudo está interligado: da moradora da periferia de Brasília que ficou nove dias sem água, ao ribeirinho que não suportou as enchentes no Rio Ganges e hoje padece na pobreza junto com um milhão e meio de pessoas que também foram para a periferia de Dhaka, à senhora que adquiriu câncer após beber água contaminada por chumbo em Flint, Michigan, ao jovem indígena do povo Krenak que viu o Rio Doce morrer diante do maior rompimento de uma barragem com rejeitos de mineração no mundo e até a criança haitiana que procura sua mãe após ter sua casa levada pelos furacões, cada vez mais intensos e frequentes. Questionar o modelo de desenvolvimento e estabelecer a grande transição ecológica para o mundo deve ser uma das principais prioridades da humanidade (junto com o fim da exploração e de todas as opressões) não apenas para alcançar o Bem Viver, mas para não encontrar a extinção da vida na Terra.

 

O Brasil no olho do furacão

O país de mais de duzentos milhões de habitantes e que possui a maior biodiversidade em todo o mundo ganhou destaque a partir da eleição de um presidente com discurso fascista que, se valendo de um momento de crise aguda de representatividade, um aumento do senso comum conservador na população e uma aliança jurídica, midiática e parlamentar para inviabilizar a oposição, venceu as eleições fazendo uma aliança com o setor empresarial, o fundamentalismo religioso e o militarismo reacionário, cada um contribuindo de alguma forma decisiva nessa eleição. Essa vitória nos coloca diante de um quadro de alta gravidade e compreendê-lo é fundamental para enfrenta-lo e vencê-lo no médio e longo prazo.

Para compreender a vitória de Jair Bolsonaro é necessário voltar um pouco no tempo. Há que se considerar o papel da redemocratização dos anos 80, que não garantiu verdade e justiça sobre as violações cometidas pela ditadura militar, passando também pelos mandatos neoliberais de desmonte do Estado da década de 90 e a negação dos direitos sociais pactuados na Constituição de 88. Mas, principalmente, há que se debruçar sobre o que foi a experiência dos governos desse século. Vivemos um ciclo petista de 13 anos de governo nos quais experimentamos mudanças sociais significativas como aumento do poder de compra da classe trabalhadora, políticas de redução da pobreza, maior inclusão social, mas não conseguimos alcançar o tão falado “desenvolvimento” ou reduzir a grande desigualdade social em nosso país. Os bancos e especuladores internacionais nunca lucraram tanto como nesse período, setores como a mineração, agronegócio e petróleo e gás avançaram sobre os direitos dos povos e sobre os biomas com aval e generoso subsídio governamental. No terreno da política, a conciliação com partidos que representam os interesses das elites em nome de uma governabilidade foram impedindo avanços reais de emancipação e manchando a credibilidade política do Partido dos Trabalhadores com crescentes escândalos de corrupção a um ponto tal que, em um momento de esgotamento dessa política conciliatória, levou a um golpe jurídico midiático e parlamentar. Esse golpe trouxe ao poder Michel Temer, que executou junto com o Congresso e validado pelo judiciário um programa de austeridade, entreguismo do patrimônio público, destruição ambiental e restrição das liberdades democráticas (inclusive neutralizando através da prisão o candidato favorito nas eleições). A agressividade desse programa, o fato dele ser o exato oposto do que foi apresentado nas eleições de 2014 (e eleito por maioria popular) e o fato da crise no país ter se intensificado ainda mais tornaram Temer o presidente mais impopular do mundo e da história do país.

Nesse cenário de grave crise, apesar de estarmos vivenciando um governo de direita, os setores reacionários ganharam força alegando que o PT (e sua principal liderança) era a raiz de toda essa crise, que Temer era da chapa de Dilma e que existia uma grave “ameaça comunista” caso o PT voltasse ao poder. Mas a crise de representação atingiu também a direita mais tradicional e setores que antes eram secundarizados devido ao extremismo nas pautas econômicas (ultraliberais), nas pautas morais (fundamentalismo religioso) e nas questões democráticas (intervencionistas e grupos protofascistas) cresceram e, ao se aliarem, acabaram se constituindo como a maior força eleitoral do país, sendo que cada um desses setores aportou algo a essa aliança. O empresariado trouxe a musculatura econômica (em esquemas de caixa 2 declarados abertamente por eles mesmos nas redes sociais) e a legitimidade de uma candidatura capaz de “acalmar o mercado”. As igrejas entraram com o trabalho de base intensivo em cada território do país (transformando seus cultos em verdadeiros comícios de campanha). Os intervencionistas entraram com a articulação militar (que tem menor peso agora, mas pode ser determinante no futuro). Os grupos protofascistas entraram com sua principal figura pública e com a articulação internacional de sua elaboradíssima rede de pós-verdade, firehosing e fake news em escala industrial baseada em análise de dados massivos de comportamento na internet, que apontou quais setores eram mais suscetíveis a quais mensagens e permitiu a geração de uma ampla maioria na sociedade em torno do projeto dessa aliança de extrema direita com Jair Bolsonaro sendo considerado a voz antisistêmica do país (mesmo não sendo contra o sistema).

Essa aliança adquiriu tamanha força, trazendo vários outros setores, que neutralizou a justiça eleitoral e conseguiu uma vitória contundente nas urnas no primeiro e no segundo turno. E ela só não foi maior porque, após o primeiro turno (que consolidou Bolsonaro como franco favorito para vencer as eleições) pessoas de todo o país se movimentaram para resistir de forma não-hierarquizada, a partir de iniciativas autônomas, porém conectadas pela mesma ideia de preservar a democracia. Experiências inspiradoras como as banquinhas pela democracia e as experiências de vira-voto tomaram conta do país e quase viraram o jogo nas eleições. O tempo curto do segundo turno não permitiu colher totalmente os frutos dessa mobilização nacional, mas a experiência do trabalho de base com mentalidade servidora, ouvindo, dialogando e criando relações nos territórios apontaram um caminho para onde seguir daqui pra frente mesmo diante dos cenários mais nebulosos.

 

Organizar e fortalecer a resistência democrática

O futuro governo de Jair Bolsonaro (e os últimos dois meses do governo de Michel Temer) não são nada animadores. Desde já está acontecendo uma investida agressiva contra os direitos trabalhistas, direitos sociais, direitos ambientais e até direitos democráticos. As recentes ações do congresso e de Temer colocam no chão qualquer ideia de que teríamos tempo para nos organizar até uma posse ou início do mandato propriamente dito, pois a política do governo eleito já está sendo executada nesses últimos dois meses de mandato de Temer, o que torna a resistência nesse período uma tarefa fundamental, mesmo em correlações de forças tão desfavoráveis.

Para termos capacidade de resistir nesse momento é necessária uma ampla articulação de todos os setores comprometidos com a democracia e com os direitos. Uma Frente Ampla pela Democracia que combine as mais variadas estratégias de resistência é fundamental, conectando as ações no parlamento com as ruas e as redes, estimulando a solidariedade internacional e fomentando uma resistência cada vez maior nos próprios territórios (em comportamento semelhante ao que estimulou todo o país no segundo turno). A união nessa frente também é importante para mapear dentro de uma totalidade os ataques aos direitos e as tentativas de retrocesso nas mais variadas áreas, além de proteger setores que estão mais vulneráveis na cidade, no campo e nos biomas, criando também uma cultura de segurança que faça parte da mentalidade de lutadoras e lutadores a partir de agora. É fato: entramos em um momento defensivo, mas é possível obter vitórias. Já na primeira semana desde a eleição a mobilização da sociedade já produziu vários recuos de políticas anunciadas, além de ter postergado votações importantes no congresso que retiram direitos, portanto, é importante lembrar que momentos defensivos não devem significar momentos de desmobilização, pelo contrário. É momento de se organizar, de entrar para um coletivo, partido, movimento ou organização de sua confiança! Caso não tenha um em sua região que lhe agrade ou da sua temática, crie! Só não atue isoladamente nesse momento.

 

O principal entrave para a resistência democrática é também a principal oportunidade de longo prazo

Não existe nenhuma dúvida de que quem pensa uma sociedade democrática e igualitária saiu derrotado dessas eleições. E essa derrota se torna ainda maior caso não seja utilizada para o aprendizado do que nos levou a essa situação crítica. E as razões passam, principalmente, por nossa forma de ver o mundo e se relacionar com ele. No campo das ideias, é necessário dar o passo definitivo em direção à compreensão da interseccionalidade das lutas e como os fatores econômicos orientam todas as formas de dominação. Não existe vitória completa para a humanidade se não acabarmos com a exploração, com todas as opressões e com a destruição do planeta. É nosso dever trazer sempre essa visão de totalidade e que qualquer dessas lutas isoladamente é limitada. Esse passo, também no campo das ideias, é fundamental para que tenhamos capacidade de realmente disputar os rumos da sociedade.

Uma vez vencido o desafio teórico de pensar as lutas de nosso tempo isoladamente, é necessário resolver o problema da prática. Os setores organizados que pensam um horizonte de transformação (salvo raras e louváveis exceções) foram se perdendo em suas disputas de micro-poderes (seus partidos, sindicatos, diretórios acadêmicos, etc.) e deixando de lado a politização e, principalmente, a mobilização através do trabalho de base real. Esse processo de décadas fez com que as ideias de transformação e de uma sociedade diferente fossem cada vez mais se isolando em pequenas “bolhas”, sem humildade e pedagogia para o diálogo, sem articulação com outros setores, com pouca formação, sem capacidade de convocatória e mobilização para as lutas e, o mais grave, sem capacidade de propor algo novo que inspire as pessoas no lugar da denúncia pura e simples ao que está posto. Estamos diante de uma geração que se especializou a denunciar os males de um sistema de injustiças nas redes sociais, mas que tem extrema dificuldade em imaginar e apresentar às pessoas uma outra realidade possível e, principalmente, de colocar a mão na massa para construir, na vida real e concreta, alternativas de superação dessa lógica que aproximem nossas ideias dos territórios e das pessoas que sofrem mais com esse sistema nos territórios das periferias das grandes cidades, no campo e nas resistências dos povos dos biomas. Esse é o maior desafio que precisamos superar para uma resistência democrática contundente e para alcançar as grandes vitórias no médio e longo prazo.

Para dar conta desse desafio será necessária uma mudança radical de postura para dentro e para fora, tendo como inspiração a principal experiência de sucesso do último período, que foi a mobilização no segundo turno, que quase reverteu uma eleição praticamente já definida em favor de Jair Bolsonaro e deixa como legado ensinamentos importantes. O primeiro deles é que as articulações (e frentes) que se constroem na realidade concreta são muito mais poderosas que as construídas em gabinetes e salas de reuniões. O segundo é que quanto menos burocracia, tentativas de centralização e de criar relações hierarquizadas, mais as pessoas se sentem parte e se dedicam em torno de um propósito comum (e isso não significa perder a noção de totalidade). E o terceiro é que uma experiência de se jogar de verdade na dinâmica e no cotidiano da população nos obriga a desenvolver outras habilidades. Precisamos desenvolver uma mentalidade cada vez mais servidora (não se julgando superior às pessoas), precisamos de comunicação não-violenta, precisamos exercer uma influência agregadora e pela positiva e precisamos semear relacionamentos reais com as pessoas, pois é isso que trará a vitória no médio e no longo prazo.

 

Uma “nova” estratégia política para a construção de um novo tempo

Se é tarefa de revolucionários do nosso tempo acabar com a exploração, as opressões e a destruição do planeta para construir o Bem Viver, precisamos acrescentar a essa estratégia os desafios próprios também desse momento no Brasil: a resistência democrática e a consolidação de uma nova práxis criativa e com mentalidade servidora que aproxime nossas ideias e nossas ações dos territórios nas cidades, no campo e nos biomas. Não é possível chamar de “nova” essa estratégia porque a história nos ensina que movimentos de resistência ao redor do mundo sempre tiveram esse fortalecimento do trabalho nos territórios como central. Grandes exemplos disso são os Panteras Negras, que tinham como “programas de sobrevivência” o oferecimento de café da manhã gratuito para crianças, clínicas médicas nas comunidades mais afetadas, ou o Partido Social Democrata Alemão que, na começo do século 20, possuía diversos serviços comunitários importantes que aproximavam as pessoas para além das ideias, mas também pelo cotidiano.[iii] Atualmente, temos como bons exemplos as experiências anarquistas na Grécia de comunidades auto-organizadas que floresceram a partir da crise econômica de 2008 e da crise de refugiados de 2016, entre outros.

O fundamental para se reaproximar dos territórios na cidade é assumir uma postura servidora e criar soluções a partir da auto-organização comunitária que dê conta de problemas concretos e semeie as ideias de Bem Viver. O desemprego cresceu, que tal organizar cooperativas dos mais variados ofícios, moedas sociais, grupos de consumo (para comprar coisas mais barato) e fortalecer oportunidades locais? Vivemos uma crise ambiental, que tal organizar mutirões para comunidades que captam e tratam água, plantam suas hortas comunitárias e agroflorestas e fiscalizam a preservação ambiental em seu território? Vivemos uma sociedade patriarcal que relega às mulheres tarefas de sobrevivência, que tal então criar creches comunitárias, lavanderias comunitárias, cozinhas comunitárias e até abrigos para mulheres em situação de violência doméstica? Nossa juventude está abandonada, que tal construir coletivos de cultura, fortalecer a ocupação de espaços públicos, organizar cursinhos populares e fornecer apoio vocacional e acompanhamento psicológico? E se tudo isso fosse possível em um único espaço: um território coletivo? Imagine a vida pulsante que esse local teria! Assim é possível otimizar os custos (que existem) de manutenção de algo assim e torna-se possível realizar mais projetos nesses territórios coletivos que nascem, se organizam e se multiplicam pelas mais diversas comunidades, enraizando nosso trabalho (e nossas ideias) nos locais de onde nunca deveríamos ter saído.

A inserção no campo e nos biomas possui características muito próprias, por conta da distância, das táticas distintas de segurança e da presença, em muitos casos de movimentos de resistência já organizados e que podem ter sua atuação fortalecida a partir de um esforço coletivo. Na relação com a agricultura familiar já existem experiências de sucesso inspiradoras como os coletivos e movimentos que impulsionam cooperativas de produção, beneficiamento e distribuição, as Comunidades que Sustentam a Agricultura e cada vez mais iniciativas que se valem dos princípios da agroecologia e da permacultura para semear um outro modelo de organização e resistência para o campo e até mesmo para os biomas. O grande desafio nesse caso passa a ser superar a lógica localista e pensar globalmente como parte do mesmo esforço em defesa da Natureza. Por que não construir um grande movimento internacional em defesa da Mãe-Terra e pelo Bem Viver? É possível, necessário e urgente uma iniciativa que mostre que tudo está conectado: do povo indígena que resiste, retoma e defende seu território ao morador da cidade que passa a comer orgânico para proteger os biomas, do quilombola que resiste à hidrelétrica na Chapada até a professora de biologia que faz educação ambiental em sua escola, da ribeirinha que enfrenta a mineradora ao morador da periferia que não aceita mais ficar sem água em sua casa enquanto o agronegócio suga toda a água para si.

Essas duas iniciativas, os territórios coletivos e um movimento internacional pelo Bem Viver se relacionam entre si e atuam ao mesmo tempo na micropolítica e na macropolítica e possuem incidência crescente principalmente de médio e longo prazo para quem busca uma sociedade livre da exploração, das opressões e da destruição do planeta. No entanto, o simples fato de semear essas iniciativas já altera o modo como cada pessoa se relaciona com a própria luta de curto prazo, principalmente na resistência democrática que precisa acontecer no Brasil. Os aprendizados a partir dessas iniciativas de uma nova práxis de diálogo, troca e confiança mútua, que já estavam presentes nas banquinhas pela democracia e nas experiências de #vira-voto,  podem e devem ser aplicados às formas de resistência, mesmo que imediatas, para obter um resultado já diferente nos enfrentamentos do presente. Temos ativistas espalhados pelo país nesse momento sofrendo com a crise de um retrocesso em direitos e uma dura derrota eleitoral mas, principalmente, vemos pessoas (ativistas ou não) que sentem falta de um grande propósito que dê significado a suas vidas e de ver que sua contribuição (por mais confusa ou limitada que possa parecer) é essencial num contexto de transformação na micropolítica (que semeia mudanças macro também). A pressão econômica por sobrevivência, acirrada por mais uma das várias crises cíclicas do capitalismo, altera tanto a experiência direta e material dessas pessoas quanto sua própria saúde mental. Assim, alternativas de construção social podem proporcionar realização de sentido, de propósito e pertencimento a partir de uma mentalidade servidora e da satisfação de, cotidianamente, estamos melhorando o mundo com nossas ações.

 

A construção de uma nova hegemonia

Embora ainda seja cedo para dizer onde nos levará essa reorientação estratégica, uma coisa é certa: o resultado que teremos para denunciar e enfrentar a hegemonia desse sistema de injustiças será diferente do que estamos tendo hoje. É necessário construir os caminhos para não apenas negar o sistema que está posto, mas também carregar a bandeira da utopia e de uma outra sociedade possível, construindo em nossos espaços desde já uma prefiguração de uma nova hegemonia baseada em novas relações de solidariedade, comunhão e valorização da felicidade coletiva. A melhor forma de fazer isso é mostrando às pessoas que as mínimas ações que realizamos hoje nessa direção estão diretamente conectadas a esse propósito maior, a esse horizonte estratégico, e que, portanto, deve ser feito com o entusiasmo de quem com aquela tarefa simples que poderia ser vista por desavisados como uma função banal ou sem valor está, na verdade, transformando o mundo.

Sabemos que os podres poderes farão de tudo para impedir um futuro assim, inclusive não hesitariam em destruir o planeta de vez caso tivessem que abrir mão de seus privilégios e de seus poderes de dominação sobre humanidade e natureza. Daí a importância de fortalecermos cada dia mais esse duplo poder, que vá sengo gestado no cotidiano e ganhando força até que se torne imbatível. A história nos mostra que processos assim, onde as pessoas assumem como delas um sonho coletivo, acreditam em sua viabilidade e colocam a mão-na-massa para realiza-lo são os grandes momentos de gênese triunfante dos povos e os momentos nos quais as coisas realmente mudam sua lógica, onde acontecem as verdadeiras revoluções.

É dever nosso semear e ocupar esse lugar no presente para construir esse amanhã diferente. É uma tarefa árdua, principalmente com os retrocessos e a dureza de uma conjuntura desfavorável, mas o desânimo e o medo se dissipam quando nos damos conta do potencial extraordinário dessa nova práxis com esse objetivo estratégico, os resultados inspiradores das primeiras experiências e a certeza de que a sociedade do Bem Viver é possível e virá através do que semeamos hoje em nome das futuras gerações e de nossa Mãe-Terra. Encaremos: estamos diante de um momento chave em nossa história enquanto humanidade. As futuras gerações falarão de nós e de nossa missão histórica, que começamos a construir coletivamente. Mãos à obra!

 

* Thiago Ávila é socioambientalista, membro da IV Internacional e facilitador de projetos coletivos de bioconstrução, agroflorestas, trabalhos comunitários, mandatos coletivos e, mais recentemente, a Banquinha pela Democracia.

 

** Sabrina Fernandes é doutora em sociologia, produtora do canal Tese Onze e autora do livro “Sintomas Mórbidos”, que será publicado em breve pela Autonomia Literária.

 

[i] Link do relatório da FAO: http://www.fao.org/state-of-food-security-nutrition/en/

[ii] Relatório da Oxfam “Recompense o trabalho, não a riqueza”: https://www.oxfam.org/en/pressroom/pressreleases/2018-01-22/richest-1-percent-bagged-82-percent-wealth-created-last-year

[iii] https://jacobinmag.com/2017/11/german-social-democratic-party-second-international-culture

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