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A relação natureza e humanidade revirada por um vírus

Carlos Bittencourt e Julio Holanda*

A soberba é, em geral, uma ignorância que se supõe sábia. Em algum momento, a autoconsciência do humano se supôs sobrenatural. Em alguns casos divinizando a existência humana sobre as demais existências, filhos de Deus. Em outros, compreendendo uma certa “escada da natureza” (scala naturae) que nos coloca no topo. Vem um vírus, forma de vida muito simples e elementar, basicamente uma cápsula protéica em torno de material genético, e embaralha o “ranking da evolução”.

Em primeiro lugar, não há fronteira entre o que é humano e o que é natural, entre o que é pessoa e o que é animal. Para os indígenas da etnia guarani sequer existe a palavra natureza como algo exterior. A noção de vida dentro da cosmovisão desses povos, por exemplo, inclui diversos elementos que a sabedoria não indígena deixa escapar, como o sol, o rio, o ar, a terra e demais elementos da natureza. A própria noção de consciência adotada por Marx, talvez uma das mais complexas e bem acabadas, parece supor que, se para o desenvolvimento dos corpos físicos houve um processo evolutivo no sentido que  Darwin o dá, entre os instintos e as linguagens animais e a consciência humana teria ocorrido algum processo de ruptura revolucionária. Segundo o “Zaratustra”, de Nietzsche, “o homem [desconto pra linguagem sexista da época] é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem”.

A teoria da evolução de Darwin foi um marco fundante no entendimento da relação entre humanidade e natureza. A concepção de história natural das espécies e do homem elaborada pelo naturalista britânico não deixam qualquer margem para explicação teológica da vida ou para o pensamento essencialista. Darwin era um “dialético inconsciente” (nas palavras de Trotsky), que aplicou o método materialista dialético à esfera da vida orgânica com perfeição, ao demonstrar como uma acumulação de pequenas variações quantitativas (as mutações) produz uma “qualidade” biológica inteiramente nova, levando ao surgimento de novas espécies. 

Ainda sobre essas relações, podemos buscar algumas pistas em nossa tradição para se pensar a alienação da natureza de hoje, que nos fez criar fronteiras entre o que é humano e o que é natural. Nos manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Marx colocava que há uma interligação entre o homem e a natureza mediada pelo trabalho, o homem vive da natureza, significa: a natureza é seu corpo, com o qual ele tem que ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é parte da natureza.

Tantos os humanos como os animais não humanos modificam a natureza pela simples presença nela, porém, diferentemente dos demais animais, os seres humanos fazem de forma intencional e planejada. É essa capacidade de idear (isto é, de criar idéias) antes de objetivar (isto é, de construir objetiva ou materialmente) que funda, para Marx, a diferença do homem em relação às demais espécies, resultado de milhares de anos de um longo, lento e gradual processo evolutivo (ainda em curso).

As consequências do pensamento populacional de Darwin são muitas, e poderosas: pôs fim a scala naturae como pensamento hegemônico, colocando os organismos vivos lado a lado e não mais um sobre o outro, põe (ou tenta pôr) fim em conceitos como melhor, mais evoluído e superior”. Nossa diferenciação enquanto espécie possibilitou construir um conjunto de ferramentas, noções e instrumentos complexos, alguns nos favorecem, outros não (como a divisão e exploração de classe, raça e gênero). Isso porque nós somos o que somos não como fruto de um determinismo biológico, mas resultado da nossa história enquanto ser social, visto que o processo evolutivo nunca é conscientemente projetado, idealizado, mas sim um mecanismo basicamente aleatório (o aparecimento da diversidade genética por meio de mutações) que promove adaptações ao ambiente.

Compreender a unicidade humanidade/natureza significa também entender que nossas sociedades são permeadas também por gestos e ações instintivas e irracionais, que ganham verniz de racionalidade por conta da nossa compreensão inadequada da natureza humana. Muitos dos paradigmas dominantes, que se desenvolveram no interior da engenharia e da própria economia, para ficar apenas em dois exemplos, tomados como fruto de uma racionalidade técnica, são nada mais do que manifestações de instintos, predominantemente masculinos. O erguer de torres fálicas imensas e inúteis, a ostentação de automóveis supervelozes em infindáveis engarrafamentos, a sede incessante de acumulação de riquezas, a guerra. Todas essas são dinâmicas societárias, mediadas pela cultura, mas que parecem conter em si os mais primitivos instintos. 

Não se trata de naturalizar os hábitos capitalistas, ou restringir a ação reflexiva humana à dimensão biológica, mas de tentar entender como a dinâmica do capitalismo se apropria e desenvolve um universo específico de aspectos primitivos da alma humana para engendrar a corrida de todos contra todos, o individualismo, etc. Trata-se de uma interação dialética das características próprias do que é humano, do desenvolvimento de nossas culturas e sociedades sob contextos geohistóricos específicos, e instintos e naturezas que partilhamos com outras formas viventes anteriores a nós.

É necessário desenvolver essa perspectiva para combater toda a ladainha liberal/hobbesiana acerca de nossa natureza competitiva, bélica, manipuladora, utilitarista. A ideia sobre natureza humana predominante não está interessada no universo tão profundo e quase insondável do que é a história do surgimento do homo sapiens e de suas sociedades. O acúmulo da psicanálise, da neurociência, da antropologia, da filosofia,  mesmo das religiões, apontam para uma diversidade quase infinita das possibilidades do ser humano. A combinação da trajetória evolutiva do humano desde milhões de anos atrás com a imensa diversidade sociocultural que se desenvolveu nos últimos milhares de anos aponta para um conjunto imensurável de possibilidades, tanto para o ser quanto para o devir do ser.

Nessa perspectiva a reflexão sobre sociedade e natureza deve também levar em conta as estruturas mentais dominantes. A essa visão “científica” que coloca o homem no topo da escada da evolução, soma-se à ideologia do progresso. É um dos elementos ideológicos mais importantes do capitalismo e também de boa parte das experiências do socialismo produtivista. Projetar o futuro apenas a partir do desenvolvimento do progresso técnico e da expansão das forças produtivas. Séculos depois do nascimento dessa ideologia, vê-se que “progredimos” para beira do abismo. Os povos originários, suas culturas, práticas e técnicas, suas formas de organização social e de relação com a vida não-humana foram tratados pelo pensamento moderno-colonial como atrasados, imagem de um idílio ultrapassado, animalizados no sentido racista do termo. Ao contrário, esses povos projetam futuro, têm muito a nos ensinar como humanidade. Sua perseguição e massacre falam muito sobre onde viemos parar. São um conteúdo que a sociedade capitalista precisa recalcar para que não retorne como força emancipatória.

Há um exemplo de desenvolvimento distinto de espécies primatas bem interessante para se pensar essa fricção entre o meio e o desenvolvimento dos instintos e da natureza animal. Trata-se da diferença entre os Bonobos e os Chimpanzés, ou segundo os nomes científicos, os Pan paniscus e os Pan troglodytes, ambos do gênero Pan que iniciaram seu processo de distinção num tempo relativamente recente, cerca de 2 milhões de anos. A análise da distribuição geográfica de chimpanzés e bonobos sugere a influência do rio Congo, possivelmente uma especiação do tipo alopátrica. Se se navega o rio em direção à foz, percebe-se os chimpanzés ocupando a margem direita e os bonobos a esquerda. Provavelmente, por conta das condições locacionais de desenvolvimento das duas espécies, escassez de recursos, tamanho das comunidades, etc., os chimpanzés desenvolveram hábitos mais violentos, inclusive de “guerra” entre grupos e predomínio dos machos. Já os bonobos são extremamente pacíficos, fazem sexo não relacionado à reprodução e têm domínio matrilinear. Este exemplo é interessante pois mostra ao mesmo tempo que a vida social e o meio implicam no desenvolvimento biológico e que o desenvolvimento biológico no meio implica na forma de vida social. Ambos têm uma enorme proximidade genética com os humanos, os bonobos, inclusive, têm um pouco mais. O raciocínio de que partilhamos com eles, mais do que apenas uma proximidade biológica no sentido estritamente corpóreo, parece bastante elementar.

Essa perspectiva parece guardar na nossa história evolutiva, que nada tem de linear, grandes descobertas ainda por serem feitas, sobre a mente humana e nosso inconsciente, assim como sobre nossa trajetória societária. A forma como a maioria das sociedades indígenas pré-coloniais, onde hoje é o Brasil, se desenvolveram, sem a constituição rígida de estamentos e classes, com a manutenção de uma ampla diversidade de ramos étnicos em relativo convívio, sem a predominância que, por exemplo, Astecas e Incas impuseram em amplas extensões territoriais, também deve lançar luz sobre como podem se desenvolver as culturas e as sociedades em situações de relativa abundância. Digamos que seja preciso, ao mesmo tempo, investigar a natureza que nos constitui e os rumos das sociedades que vivemos, fazendo estes aspectos interagir dialeticamente.

É possível entender essa nossa unicidade com a natureza, ou melhor, unicidade sendo natureza, também em sentido contrário. Hoje se sabe que mesmo a floresta amazônica, por muito tempo tratada como mata virgem, não tem nada de intocada, ela é fruto do manejo de comunidades humanas e não humanas ao longo de milhares de anos. O bicho humano que faz sua casa como quer, onde quer, troca meios de vida entre si, move-se e alastra-se pela Terra. Hoje, seus aviões, trens e navios singram o mundo. E como somos natureza, levamos e trazemos conosco, embrincados com a cultura, plantas, remédios, bactérias, fungos, vermes e vírus.

A história natural dos continentes mostra que os desenvolvimentos locais cumpriram processos próprios. Não havia elefantes ou cangurus nas Américas, por exemplo. Mas a ação humana, que insistimos para que seja entendida aqui como força da natureza que opera outros elementos naturais, dando formas diversas à matéria e à energia, remodela o mundo e suas dinâmicas ecológicas. Se no surto de febre amarela em 2017 no Brasil várias pessoas saíram às ruas condenando à morte os macacos, esse comportamento se repete parcialmente em 2020 com o novo coronavírus. Em cidades no Peru, humanos saíram às ruas condenando igualmente à morte os morcegos, culpabilizando-os pelas nova doença. Os processos de evolução da forma viral e suas consequências nefastas à saúde humana, se referem muito mais sobre nós mesmos, na forma de organização social hegemônica e na relação predatória que estabelecemos com a natureza não humana e com as demais espécies do que sobre macacos e/ou morcegos.   

A pandemia do coronavírus revela, ao mesmo tempo, a velocidade, a intensidade e a extensão do movimento humano pelo globo, assim como o quanto que ela não é capaz de extrapolar, apesar de forçá-las ao limite, as interações ecológicas no interior da natureza, incluindo aí o interior de nossos corpos. O que se denominou “Globalização” foi o passo final em direção ao que os cientistas chamam de Antropoceno, o tempo geológico no qual a ação humana sobre o planeta crava marcas profundas em sua dinâmica, alterando de modo irreversível suas características. Mas a própria concepção desenvolvida aqui sobre o que seria o “antropo”, sugere que ao mesmo tempo em que o humano muda o mundo à imagem e semelhança de suas decisões (que trazem dentro de si o consciente e o inconsciente, o racional e o instintivo), o mundo ecológico também impõe mudanças à realidade humana e à própria biologia humana. O aumento da vulnerabilidade às pandemias como essa, que se alastram em semanas por todo o globo revelam uma nova face da globalização. Paradoxalmente, o intercâmbio global que permitiu a disseminação do vírus leva um amplo conjunto da humanidade ao isolamento. Isso terá toda uma sorte de efeitos sobre subjetividades, corpos e economias, impostas por essa forma de vida elementar e primitiva, o vírus. O ser humano, mesmo que olhe para ela com a arrogância típica de quem se acha no topo do “ranking” evolutivo, pode ter seus pulmões devastados em poucos dias.

Como nos traz o geógrafo Carlos Walter no Livro Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização (2006): “tudo indica que o planeta como um todo começa a dizer, tanto ecológica como politicamente, que o local já não é isolável, tal como foi durante o período áureo do colonialismo e do imperialismo clássicos. O desafio ambiental nos conclama à solidariedade e a pensar para além do individualismo fóbico. E, como não há instituições que não sejam instituídas, é bom prestarmos atenção aos sujeitos instituintes que estão pondo esse-mundo-que-aí-está em xeque e que apontam, com suas lutas que um outro mundo não só é possível, como necessário.

Autoconsciência deve significar consciência sobre os limites da consciência. Sobre os próprios limites da ciência e especialmente das racionalidades técnicas desenvolvidas sob a égide do capitalismo. A crítica da sociedade capitalista, racista e patriarcal deve ser também a crítica da forma e do conteúdo humanos que emergem nessa sociedade, de filtros e funis, de winners e loosers, forma narcísica e/ou deprimida. 

A emergência de uma nova sociedade não apenas aponta, mas se embebe em um novo humano, e, por consequência, em uma nova natureza. Isso passa por destituir e derrotar os donos da vida, generalizar abundância, paz, comunhão, felicidade. O capitalismo, como formulou Marx, produz uma falha metabólica na relação sociedade e natureza em decorrência de suas relações de produção e da separação antagonista entre cidade e campo. É preciso, portanto, destruir o capitalismo, restabelecer o metabolismo entre nós e natureza, entre a cidade e o campo. Nessa nova relação de unicidade ressignificada, dar acesso à humanidade ao conjunto das potencialidades humanas e às demais espécies aos seus respectivos potenciais de vida.

Crédito da fotografia: Caroline Deimel / Lui Kotale Bonobo Projekt

Carlos Bittencourt é historiador, ecossocialista, doutorando no CPDA/UFRRJ e militante do Subverta.

Julio Holanda é biólogo, ecossocialista e militante do Subverta.

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