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A vitória da médica Thelma e a manipulação da Rede Globo durante o Big Brother Brasil

Do Setorial de Negres Marielle Franco do PSOL Niterói

Por tudo que a rede Globo de Televisão representa em termos de defesa do neoliberalismo, na manutenção do racismo e do patriarcado. Sim, a rede Globo, assim como todas as outras emissoras de canal aberto, monta a sua grade de programação impregnada por estes pilares ideológicos, políticos e econômicos. E todas elas não se furtam em se apoderarem de pautas que se tornam populares, dentre as quais, as pautas políticas dos movimentos sociais, causando desconstrução e esvaziamento político, confusão, distração e jogando por vezes, inclusive, um movimento contra o outro!

Nesta edição deste ano de 2020 selecionaram dois competidores da diversidade negra brasileira, dois competidores negros, uma mulher e um homem, mas com posicionamentos completamente diferentes frente à realidade brasileira. O ator Alexandre da Silva Santana (o Babu) participou com falas politizadas e polêmicas, denunciou em vários episódios os racismo estrutural existente em nosso país, sempre de seu lugar de fala de homem negro, periférico e pertencente à camada popular.

Ela, a médica Thelma Regina Maria dos Santos Assis, desde a chamada exaltou ser uma mulher negra, que lutou para chegar lá, exaltando do seu lugar de fala de mulher empoderada, aparentemente influenciada pelo feminismo liberal e discurso do movimento “Black Money”, como aquela individualmente fez por merecer para conquistar o seu lugar.

Durante o programa a emissora explorou muito bem estas diferenças entre as representatividades negras, “dividindo para reinar”. Friso aqui inclusive as diferenças de classe. E principalmente ao colocar em rota de colisão dois movimentos sociais que possuem grande influência nas oposições políticas frente ao neoliberalismo no país: parte do movimento feminista e parte do movimento negro. Veja bem, eu disse parte!

Acompanhamos diante disso uma série de colocações infelizes nas redes sociais, de representantes de ambos movimentos sociais. Discursos, opiniões e julgamentos que mostravam que o plano em curso da emissora era extremamente promissor! Materializando-se em mais audiências a cada momento e em mais lucro para a emissora: “money-money-money…” Era isso que de fato importava!

De fato, a médica Thelma em alguns momentos confundiu a pauta feminista com sua própria identidade racial. Mas esta questão nos faz concluir que sua identidade de gênero, ser mulher, está mais bem estruturada do que sua própria pertença racial ? Mas temos que lembrar que como mulher negra, provavelmente oriunda das camadas médias urbanas, faz parte de uma geração inteira que foi vítima da própria emissora quando criança.

Uma geração que foi afetada em sua identidade racial assistindo uma programação maquiavélica planejada para que não se enxergassem de modo positivado/positivo. Um programa televisiva inteiramente branca, com programas infantis apresentados sempre por mulheres brancas, estilo europeu, loiras, de cabelos lisos, com poucas variações nas outras emissoras de canais abertos. Como cobrar identidade e solidariedade racial desta médica? Necessitamos nos fortalecer, lançando mão de nossa ancestralidade, de nossa oralidade! Este é um processo político que requer reconstrução das mídias brasileiras e muito diálogo, que requer paciência e (auto)cuidado para enfrentarmos essa guerra política para nos amarmos integralmente.

Em muitos momentos aqueles que assistiram o reality relataram que a médica Thelma ficava introspectiva e calada ouvindo o ator Babu! Sim, a escuta também é um caminho! Precisamos nos ouvir mais! No entanto, o silêncio frente a seus apoiadores brancos no programa foi ensurdecedor, pois não ocorreu tensionamento direto com estes, mantendo-os na zona de conforto. Com este silêncio, ela ocupou o lugar que lhe foi destinado, o lugar das cotas, esvaziando o sentido político desta reparação histórica. Ocupando este lugar acabou legitimando o discurso de pretensos salvadores.

O ator Babu expressou muitas vezes extrema coragem em motivar discussões e reflexões importantes sobre o ser negro no Brasil. E ele, por sua coragem em denunciar o racismo à brasileira foi classificado como o negro agressivo, outro lugar que os racistas escolhem para negrxs como ele.

Ao final do programa careceu posicionamento da médica Thelma em relação aos ataques racistas direcionados à Babu ? Sim! Mas e a emissora de televisão? Acompanhamos poucos posicionamentos e comentários neste sentido. Não caberia à emissora coibir crimes em seu programa? Pois racismo é crime! O ator Babu saiu do programa e uma de seus algozes permaneceu. Afinal, tinha o álibi da branca salvadora de crianças pretas na África.

A médica Thelma ganhou! Dizem os telespectadores pelas redes sociais que venceu com ajuda do público que torceu pela vitória do ator Babu. Caso seja verdade é um belo exemplo de identidade e solidariedade racial para a vencedora e aqueles que acompanharam o programa. Parabéns à vencedora! Mas torcemos que vença na construção política em tornar-se plenamente negra! E tomara que a médica anestesiologista divida o valor da premiação com o ator Babu! Ensinando à emissora e ao sistema que ela representa, que não temos senhores, que entre os movimentos sociais nosso inimigo em comum é o sistema que nos oprime e explora e que nós, negras e negros, somos de fato UBUNTU!



*A militância do Subverta também constrói o Setorial de Negres Marielle Franco do PSOL Niterói

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