Novidades

Não conseguimos respirar: rebelião contra a violência policial

31 de maio de 2020

Os levantes e manifestações em Minneapolis e em outras cidades, inclusive em frente à Casa Branca, após o assassinato brutal no dia 25 de maio de George Floyd, um homem negro desarmado, por policiais brancos de Minneapolis, e a hesitação de promotores locais e federais em prenderem imediatamente os policiais que haviam sido gravados durante a ação, vêm na esteira de vários outros casos recentes de violência racista amplamente noticiados.

No dia 30 de maio, as manifestações já haviam se espalhado por dezenas de cidades, com manifestantes multirraciais, muitos deles, jovens, com máscara e aparentando estarem tentando manter o distanciamento social enquanto andavam pelas ruas. Alguns pareciam ter sido mobilizados por organizações locais ou nacionais, enquanto outros foram motivados a participar pelas imagens do vídeo do assassinato e de protestos em outros lugares. O assassinato de Floyd é o último de uma série de assassinatos de homens negros por policiais que remonta ao assassinato de Michael Brown em Ferguson, Missouri, em 2014, ou, ainda, ao espancamento de Rodney King pela polícia de Los Angeles em 1991, um dos primeiros espancamentos pela polícia que foi gravado.

Com a divulgação das estatísticas desanimadoras em relação a doenças e óbitos devido à pandemia de Covid-19 nas últimas semanas e meses, ficou claro que cidadãos de minorias étnicas têm sido as principais vítimas da crise sanitária. O assassinato de George Floyd nos lembra que a brutalidade policial não entrou em quarentena durante a pandemia.

Praticar corrida e observar pássaros quando se é negro

Em fevereiro, Ahmaud Arbery, um jovem negro, estava praticando corrida próximo a sua casa perto de Brunswick, Georgia, quando três justiceiros brancos, incluindo um ex-policial, abordaram Ahmaud enquanto tentavam, segundo eles, “exercer o direito de cidadãos comuns de darem voz de prisão em situação de flagrante”. Um deles atirou em Ahmaud três vezes com uma espingarda, enquanto outro ficou de guarda com um revólver em punho. Só quando o vídeo do incidente feito por um terceiro participante, um civil branco, foi divulgado, o Departamento de Investigação da Georgia finalmente se envolveu e prendeu os dois primeiros, e depois, o terceiro justiceiro. Esse tipo de conexão fisiologista entre autoridades e homens brancos reacionários, que permitiu que demorasse várias semanas para que os justiceiros fossem processados, lembra o assassinato dos ativistas dos direitos civis Cheney, Goodman e Schwerner por justiceiros locais e por policiais em Mississippi durante o Verão da Liberdade em 1964.

Apenas alguns dias antes de George Floyd ser morto, começou a circular um vídeo que mostrava uma mulher branca no Central Park, em Nova York, ameaçando ligar para a polícia e dizer que a vida dela estava “sendo ameaçada por um homem afro-americano” em resposta a um observador de aves negro que pedia para ela colocar a coleira em seu cachorro, como pedem as regras do parque. A mulher e a pessoa que ela queria tornar vítima tinham mais do que um sobrenome em comum (Cooper): ambos entendiam em quem a polícia, os promotores e a mídia tradicional iam acreditar. De forma assustadoramente irônica, o incidente aconteceu no mesmo parque em que cinco homens negros, “Os Cinco do Central Park”, foram falsamente acusados, condenados e presos por estupro e espancamento de uma investidora branca em 1989. Uma pessoa branca privilegiada aproveitar-se descaradamente da situação racial e de gênero na sociedade estadunidense já é revoltante se visto de forma isolada, e não tinha como não inflamar ainda mais os protestos que começaram em Minneapolis. Por volta da mesma época, Breonna Taylor, uma profissional de saúde negra, foi morta a tiros em sua cama em Louisville, Kentucky, por policiais que cumpriam um mandado de prisão no endereço errado. O assassinato de Arbery, Floyd e o caso do Central Park talvez nunca tivessem vindo a público se não tivessem sido gravados.

A gravação de George Floyd suplicando “Não consigo respirar” é dolorosamente reminiscente do assassinato de Eric Garner pela polícia de Nova York em 2014. Linchamento por parte de justiceiros com a participação da polícia local; prontidão dos brancos em usarem seu privilégio para ligar para a polícia e acusar pessoas negras pela menor ofensa imaginável, incluindo sua própria presença, e o milésimo policial matando uma pessoa negra desarmada são só alguns exemplos do tratamento que pessoas negras devem esperar receber nos EUA.

O clima político que encoraja essas atitudes é alimentado por um presidente que flerta abertamente com as forças mais racistas e reacionárias no país, com a cumplicidade tácita de um dos partidos que nos governam, e o repúdio vazio e a ineficácia do outro.

Desta vez, o fogo

De anos em anos, a avalanche de casos de violência contra afro-americanos chega ao ponto em que o luto e a raiva transbordam e são expressados em levantes acompanhados do incêndio de cidades e saques a lojas. Houve rebeliões em Watts em 1965, em Detroit em 1967, e em várias cidades após o assassinato do Dr. Martin Luther King, Jr. em 1968, assim como em Los Angeles, após a absolvição dos policiais que espancaram Rodney King em 1991.

A delegacia de Minneapolis em chamas e o abandono temporário das ruas circundantes aos manifestantes têm uma importância simbólica considerável. Quarteirões ocupados pela polícia em comunidades de minorias étnicas são constantes lembretes de que a polícia é uma força de ocupação em vez de fonte de segurança pública. Os manifestantes dançaram na sombra das chamas que consumiam o 3ª DP de Minneapolis, um símbolo material de sua opressão. Por algumas horas, as ruas pertenceram às pessoas que ali moram.

Podemos esperar o costumeiro conjunto de condenações e apontar de dedos hipócritas de porta-vozes liberais e conservadores lamentando o quanto o dano causado pelos protestos só vai prejudicar a própria comunidade negra. Isso também é uma forma de abafar o assunto. Levantes urbanos são o resultado, não a causa, das péssimas condições de vida que negros e outras minorias têm que enfrentar em cidades racialmente segregadas nos Estados Unidos. Décadas de negação de serviços públicos por discriminação do Estado, fuga de capital, segregação residencial e outras características do capitalismo racial transformam há muito tempo vários bairros negros em centros de desemprego, desespero, violência e negligência institucional, enquanto áreas centrais e residenciais brancas prosperaram graças à infusão de capital privado e financiamento público, e áreas brancas ainda mais ricas desfrutam de vizinhanças seguras e de escolas que recebem o devido investimento. Igual aos vestígios do 3º DP, a raiva de uma comunidade que simplesmente não consegue mais respirar também arde lentamente. As rebeliões são um clamor pelo oxigênio da justiça social e racial. Assim como as fontes de exploração, opressão e violência do Estado e de justiceiros vivenciadas por afro-americanos nos últimos quatrocentos anos estão enraizadas e descontroladas, as soluções também são vastas. Elas começam por responsabilizar o Estado pela violência cometida pela polícia e processando os justiceiros incentivados pelos políticos que nos governam. No entanto, o enfrentamento dos extensos problemas da opressão negra vai precisar de mudanças estruturais profundas, como o desmantelamento dos sistemas racistas de justiça criminal e prisionais, e uma redistribuição da riqueza que pode envolver várias formas de reparação pelos crimes de escravidão que têm sido discutidas em círculos progressivos. Em 1963, o romancista negro James Baldwin nomeou suas reflexões sobre a opressão racial de “Da próxima vez, o fogo”. O fogo chegou e apenas um reordenamento da sociedade estadunidense pode acalmar as chamas de protesto que ela produziu.

Tradução: We Can’t Breathe (Solidarity National Committee)
31 de maio de 2020
Texto original em: https://solidarity-us.org/we_cant_breathe/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: