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Aniversário de Brasília

card colorido, fundo verde azulado. folhagens verdes transversalmente na lateral esquerda, flores brancas e rona na lateral direita. Ao centro, quadro com fodo de vista aérea de Brasília. Texto "aniversário de Brasília" abaixo da foto. Logo do Subverta no canto superior direito.

Por Anie Figueira

O aniversário da cidade que por não saber como existir socialmente, reinventou a vida cotidiana

James Houlton, grande crítico da experiência de Brasília, vai atrelar o estranhamento que a cidade ocasiona aos seus novos moradores, como uma consequência da ausência da rua corredor, pela falta de esquinas, pela escassez dos encontros casuais, e também por a necessidade de marcar encontros nas casas individuais das pessoas, para que haja interação social. O Coletivo Transverso, em um dos seus famosos lambes espalhados pela cidade, vai dizer “Brasília expande a distância entre os corpos”.
Não é novidade para ninguém, a segregação espacial de uma das cidades mais desiguais do Brasil. Pautada desde sua fundação para o espraiamento da cidade, com aquilo que a professora Maria Fernanda Derntl vai chamar de “faixa sanitária”, o DF tem o seu planejamento regional guiado pelas chamadas Unidades Socioeconômicas Rurais (USERs), que vão se subdividir inicialmente em sete territórios, Paranoá, Sobradinho, Brazlândia, Guariroba, Vargem da Benção, Alagado-Saia Velha e Papuda. 
Está no DNA da cidade de Brasília, decidir quem serão os servidos e quem serão os servidores. Ao descompactar a experiência sobreposta da cidade como o espaço da luta de classes, Brasília, dentro do seu perímetro urbano empreendido pelo Plano Piloto e suas ricas mansões no Lagos Sul e Norte, dá àqueles que atravessam de passagem pela cidade a falsa impressão de ser um projeto e um processo higienista de viés finalizado. Soma-se a isso um Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília, usado quase sempre como mote de cristalização de uma ideia, mais do que a valorização da vida humana, e o sentimento é quase fatal de derrota.
Por isso Brasília se adapta tão bem aos objetivos autoritários da ditatura militar de 1964, o seu próprio nascimento, é atravessado pela Guarda Especial de Brasília (GEB) que oprimia e violentava os operários que ousavam reclamar da má alimentação e das péssimas condições de trabalho as quais eram submetidos.  Herança que a polícia militar do DF guarda no comportamento violento e carrega como motivo de orgulho, e não de vergonha.
Isso também fica evidente na própria segregação narrativa que divide os moradores do DF, muito embora as cidades não contem com autonomia política para eleger os seus próprios governantes, mas contem com efetivo econômico e populacional, as regiões administrativas (que não podem mais ser chamadas de cidades satélites porque esse nome escancarava o plano de desigualdade), seguem resistindo a subordinação que nega a sua identidade, como é o caso dos ceilandenses, que orgulhosamente propagam seu rap e reafirmam o seu direito de existir para muito além da cidade tecnocrata que setoriza os afetos, como setoriza as vivências humanas.  
A cidade é permeada de uma administração despótica, que tratou o Cerrado aqui existente como Ex nihilo, como se aqui não houvesse povos originários, pintou o símbolo de um J.K como um herói bandeirante, como se bandeirante pudesse ser herói, e não um invasor de terras já ocupadas por povos muito mais antigos e legítimos no território. 
A Brasília idealizada é uma mentira, fruto de uma demagogia retórica, que sonhou com o rompimento com o seu passado colonial, sem passar a sua história de opressões a limpo e repetiu ciclicamente o colonialismo a partir do qual o país inteiro foi inventado.
Todavia, parafraseando o poeta Emicida, “O feijão germina no algodão, a vida sempre vence”, se a cidade construída está para o autoritarismo, como a vida real está para a sobrevivência da classe trabalhadora nas frestas, que utilizemos a resistência como recurso de utopia e, portanto, de esperança. E de processos de resistência e insurgência urbana, Brasília está permeada. 
Dos exemplos mais antigos, aos mais recentes, existe a Brasília inventada pelo discurso hegemônico, e existe a Brasília vivida no cotidiano, a Brasília dos monumentos construídos para impressionar a opinião pública dentro e fora do país, e as anônimas “Vilas Amaury”, experiências de vivência humana inundadas e aparentemente vencidas, mas que permanecem germinando no imaginário popular. 
Se a maioria das cidades do mundo passou a sofrer com a crise neoliberal a partir de meados dos anos 70, Brasília há muito tempo reinventava a vida cotidiana apesar da sua compleição morfológica individualizante e coletivizava as suas lutas a despeito da sua segregação no território. 
Brasília segue dando aula de como subverter o seu projeto original ao lutar pelos direitos à moradia e à educação na Ocupação no CCBB, a cozinha solidária do MTST em Planaltina, à Cultura no Mercado Sul em Taguatinga, pelo direito ao trabalho ambulante na Rodoviária e No Setor Comercial Sul, pela arte legítima em Ceilândia que vai do cinema ao rap, além da luta dos povos originários na região mais cara do DF, no bairro Noroeste, pelo seu direito que continuar existindo e preservando o seu modo de vida. 
Se o mito da modernidade tem por excelência a destruição de tudo o que intenta ficar no seu caminho de desenvolvimento, o aniversário de Brasília nos lembra, quase colado à luta dos povos indígenas, que o novo ano que começa na história da cidade, é mais um ano para traçar novos rumos e desejos para a coletividade que compõe esse tecido social. Desejos que prezem pelo envolvimento (uma ruptura proposital com o des-envolvimento), que sonhem com uma sociedade do Bem-Viver e que agreguem ao imaginário popular que apenas junção das lutas que associem cidade, campo e florestas, vai nos emancipar no terrível colapso ambiental que nos aguarda se não pautarmos outro tipo de sociedade.

Anie Figueira – arquiteta e Urbanista e militante do Subverta-DF

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