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A juventude também é classe trabalhadora

Se liga na reflexão sobre juventude e trabalho que o nosso Setorial de Juventude preparou para o Dia do Trabalhador e da Trabalhadora.

A juventude, quando entendida meramente pelo aspecto demográfico, compreende as pessoas entre os 15 e os 29 anos de idade. Porém, quando classificada a partir de uma perspectiva subjetiva, desdobra-se em aspectos sociais muito mais complexos do que aqueles definidos pelos conceitos etários. Assim, podemos afirmar que a compreensão ampla da juventude deve envolver o entendimento de que esse recorte da população tem sido um dos maiores responsáveis pela promoção de transformações significativas na sociedade.

Nesse contexto, como exemplos do papel jovem nos movimentos sociais, cabe mencionar os levantes de 1968-1970, nos quais houve uma participação notória da juventude nas lutas por libertações nacionais e independências em países da América Latina, do Caribe e da África. Além disso, mais recentemente, destacam-se as mobilizações realizadas em 2013 no Brasil, nas quais a juventude se fez presente de forma massiva ao reivindicar melhores condições sociais sob o governo petista. Estas, apesar da apropriação feita pelos movimentos da extrema direita no seu desenvolvimento, podem ser entendidas como um marco recente que evidencia o grande poder que a juventude tem de abalar as estruturas da sociedade. Assim, cabe a nós, da esquerda radical, disputar os rumos dessa luta.

Ainda nesse sentido, considerando o potencial transformador e realizador dos jovens, entendemos que é impossível falar de juventude sem falar em resistência, rebeldia e revolução. Mais que isso, uma vez que falamos sobre o aspecto questionador daqueles que ainda estão descobrindo o mundo, não podemos deixar de considerar o grande papel que a juventude tem desempenhado na conquista de diversos direitos, inclusive os trabalhistas, principalmente a partir do início do século XX. Afinal, jovens costumam ser os mais afetados pelas políticas de austeridade impostas ao mercado de trabalho no capitalismo, especialmente em momentos de grandes crises do Capital.

No caso do Brasil, por exemplo, a realidade socioeconômica de grande parte dos jovens aponta para a necessidade, cada vez maior, de inserção precoce no mercado de trabalho. Sendo obrigada a contribuir com a composição da renda familiar, a juventude da classe trabalhadora se vê forçada a conciliar o trabalho e o estudo – o que é extremamente desafiador devido às exaustivas horas da jornada trabalhista. Além disso, por ainda não ter tido tempo suficiente de concluir sua formação e qualificação profissional, costuma ser alocada em ocupações informais extremamente precarizadas. Dessa forma, a dinâmica do mercado se modifica no sentido de priorizar a contratação dos trabalhadores e trabalhadoras mais novos e preterir a dos mais velhos, reduzindo ainda mais os níveis de qualificação profissional e a renda média das famílias brasileiras. 

Diante dessa realidade, é importante enfatizar a forma como o acesso à educação tem se apresentado de maneira incoerente no enfrentamento da precarização das relações trabalhistas. Se ao longo dos governos petistas houve uma considerável ampliação das políticas públicas educacionais e a promessa de consequente melhoria nas condições de trabalho, hoje a realidade aponta, como era de se esperar, que apenas a educação não é capaz de solucionar problemas causados pela desigualdade social.

Nesse sentido, apesar do seu papel transformador, não podemos acreditar que a educação sozinha irá trazer a justiça social e superar todas as desigualdades da nossa sociedade, frutos das estruturas que mantêm o sistema capitalista, ao promover o acesso a postos de trabalhos que exigem maior qualificação e entregam maiores salários.

Afinal, em um país caracterizado pela grande concentração de renda, ampliada pelas políticas neoliberais aplicadas desde a década de 90 e intensificadas nos últimos anos, o mercado tem se desenvolvido cada vez mais a partir de uma lógica competitiva cruel, em que aqueles que, por necessidade, aceitam ser mais explorados garantem uma vaga de emprego, e os que não aceitam se submeter a tais condições ficam fadados ao desemprego e à fome. O fato é que, em muitas situações, pouco tem importado se quem procura trabalho possui ensino superior completo de qualidade, uma vez que impera hoje a lógica do exército de reserva, na qual o desemprego estrutural se apresenta como mantenedor do poder do mercado capitalista e da ampliação da mais-valia.

Nesse contexto, é notável a forma como o discurso neoliberal tem se apropriado dessa realidade de flexibilização e precarização das relações de trabalho para intensificar a fragilidade da classe trabalhadora e justificar a carência de políticas públicas eficazes no atendimento dessa população. Assim, defende-se cada vez mais a ideia de que as pessoas, principalmente as mais jovens, devem, de maneira individual e independente do Estado, buscar se adequar e se reinventar diante da realidade posta. 

Dessa forma, o empreendedorismo como solução para o desemprego passa a se estender aos mais diversos trabalhadores, sejam eles entregadores de aplicativos, que precisam arcar com praticamente todos os custos para arrecadar uma parcela ínfima do que produzem; sejam eles donos de pequenos negócios, taxados desproporcionalmente em comparação aos proprietários de multinacionais bilionárias. De acordo com essa ideia, de repente, todas as pessoas podem ser empreendedoras, basta ter vontade. Na prática, esse discurso só favorece a lógica do “empreendedor de si mesmo”,  que na verdade significa explorar a si mesmo, obrigando-se a cumprir jornadas extenuantes de trabalho para conseguir um mínimo de sobrevivência. É esse tipo de solução que o neoliberalismo vende para a nossa juventude.

No entanto, é fundamental salientar que, apesar de a realidade exposta estar presente em todo o Brasil, as dimensões continentais do nosso país, bem como os enormes índices de desigualdade social implicam em vivências multifacetadas, a depender dos recortes de localidade, classe, gênero, raça, orientação sexual, etc. Nesse sentido, a realidade que um jovem de classe média do sudeste estabelece com o trabalho é completamente diferente daquela estabelecida por um jovem periférico do norte/nordeste, que possivelmente estará submetido a uma urgência muito maior em garantir algum tipo de renda, mesmo que abaixo das suas qualificações. 

Ademais, destacamos as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, que muitas vezes precisam acumular duplas ou triplas jornadas de trabalho; pela população negra, que lida diariamente com a necropolítica racista imposta pelo Estado, e pelos LGBTQIA+, que costumam ter menos oportunidades de acesso à formação e qualificação profissional; dentre outras inúmeras dificuldades estruturais. Por isso, para que seja possível discutir soluções para a juventude, é fundamental considerar as mais diversas camadas de opressão que atingem os jovens no Brasil.

Dadas todas essas realidades que se cruzam pelas diferentes formas de exploração, entendemos que a luta revolucionária se torna a cada dia mais urgente. Isso envolve não apenas jovens de classe média,  sobrecarregados pela necessidade de aproveitar o tempo de que dispõem na sua formação como mão de obra mais qualificada que seus pais; mas principalmente adolescentes da periferia, privados da suah juventude para assumir grandes responsabilidades e lutar pela própria sobrevivência. O que ressaltamos aqui é, acima de tudo, a importância do reconhecimento da juventude como classe explorada.

Combater o capitalismo em sua raiz não é nem nunca foi tarefa fácil, principalmente quando o próprio sistema se apropria das críticas e se mascara como solução, deslocando o eixo da discussão ao estimular a rivalidade entre os oprimidos. O enfrentamento dessa lógica, portanto, não pode ocorrer sem que haja formas de levante organizado atentas para a complexidade da luta e apoiadas na práxis revolucionária. Nesse sentido, mesmo com pouca experiência, a juventude desempenha papel fundamental. Por serem os jovens aqueles mais atingidos pelas crises crescentes e os mais ameaçados pela destruição em massa do planeta, representamos também a mais profunda e latente revolta diante da negação da possibilidade de ter um futuro.

Somos, por isso, questionadores, e os nossos lugares são os espaços de luta. As organizações se apresentam, assim, como acolhimento e estímulo à justa indignação. Mas, mais do que isso, as organizações radicais que se propõem a questionar as bases do sistema são as mais potentes possibilidades de transformação da realidade. 

A sociedade precisa da energia rebelde jovem, e o planeta precisa do nosso senso de urgência. Olhar para as demandas da juventude é olhar para o futuro, e a mobilização dos jovens dentro desses espaços é a materialização da esperança de que é sim possível construir uma sociedade ecossocialista. Os jovens precisam se organizar, isso é fato, mas a partir da realidade de cada local. Seja nas periferias, com os saraus e as rodas de slam; nas universidades, com o movimento estudantil; seja no movimento dos trabalhadores e trabalhadoras por aplicativo – já que a maior parte desses e dessas são jovens, ou mesmo nas organizações políticas que devem ter o papel de englobar e organizar todas essas lutas. 

A juventude não é somente o futuro, mas também o hoje. O nosso tempo é o agora, e a construção de um mundo livre de todos os tipos de exploração, de todas as opressões e da destruição planetária necessita de mobilização e organização nos mais diferentes espaços desde já. Afinal, que exemplo de luta queremos dar para a próxima juventude revolucionária que vier? Como defendido por Paulo Freire, a nossa esperança por um futuro melhor não deve vir do verbo esperar, mas sim do verbo esperançar.

… É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo….”

– Paulo Freire

                                                                                                 Setorial de Juventude do Subverta
                                                                                                                 Primeiro de Maio de 2021

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