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Uma visão ecossocialista sobre a COP

Card colorido, fundo azulado. O fundo da imagem é uma foto de um painel da COP26, o painel é azul com os logos da Nações Unidas para as Alterações Climáticas e da COP26, abaixo estão sentados em uma mesa líderes políticos de diversos países. Em destaque no centro do card o texto

A COP


No último dia 31 de outubro teve início em Glasgow, na Escócia, a 26ª edição da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas. Essa é a vigésima sexta oportunidade que os países e líderes mundiais têm para apontar os caminhos para nos tirar dos trilhos do catastrófico aumento da temperatura média do planeta. Há pelo 40 anos a ciência vem confirmando o que sabemos hoje: as mudanças climáticas são resultado inequívoco da ação humana no planeta, no entanto parece que ainda engatinhamos para as soluções.

Essa COP começa em um mundo que já presencia um aumento no número e na intensidade de eventos extremos tais como: vendavais, enchentes, furacões, ondas de calor, incêndios florestais e secas (no Brasil estamos passando pela maior dos últimos 91 anos), empilhando o que foi naturalizado empilhar nesta pandemia: número de mortos e atingidos.


São nos países do Sul Global e as pessoas mais pobres dos países do Norte Global aquelas mais afetadas. As áreas de espoliação do capital – aquelas passíveis de exploração desenfreada – agora são as bordas indesejadas de um sistema em colapso que tenta se reconfigurar para o próximo período histórico. As consequências das mudanças do clima são um novo vetor de morte do capitalismo, como se já não bastasse a fome e o tiro.

O Brasil na COP

Se no passado o Brasil era referência nas discussões ambientais e climáticas, a política anti-ambiental do governo Bolsonaro nos jogou na vala dos negacionistas. O Brasil está entre os TOP 10 contribuintes das mudanças do clima e, quando o mundo inteiro reduziu suas emissões por conta da paralisação da pandemia, o Brasil bateu recorde de emissão dos últimos 15 anos.

Esse aumento é percebido no gráfico a seguir e fica nítida a razão: o aumento da contribuição da “mudança no uso da terra e floresta”, mais conhecida como desmatamento.

O governo brasileiro anunciou um pacote anti-vergonha às vésperas da COP com o Programa de Crescimento Verde, mas em seu lançamento Paulo Guedes defendeu que a transição energética está vindo e, portanto, temos que aproveitar para tirar todo o petróleo do subsolo antes que seja tarde demais. Nada mais que slides bonitos e vídeos bem editados para tentar limpar a imagem de ecocida de Bolsonaro, que sequer foi à Conferência.

Blá Blá Blá: as promessas

As promessas feitas nas últimas COPs, sobretudo o Acordo de Paris (2016), falharam. O conjunto das metas voluntárias de cada país apontam para um aumento de 2,7ºC e não o acordado de 1,5ºC. O fundo dos países ricos de US$ 100 bilhões por ano para apoiar mitigação e adaptação dos países empobrecidos não alcançou esse patamar e ainda vem de uma forma cruel: através de empréstimos, contribuindo para o aumento da dívida do sul global em uma arquitetura financeira que reforça as bases moderno-coloniais do sistema capitalista.

O mundo chega nesta COP ainda carregado de esperança de que é possível conter o aumento da temperatura média em menos de 2ºC – o que já produzirá efeitos bastante graves. As regulamentações de alguns pontos do Acordo de Paris – produzido há 5 anos e ainda cheio de lacunas – são o fio de cabelo que conecta a humanidade à expectativa de que sairemos dessa.

Primeiro porque apesar da muita pressão dos países empobrecidos pela concretização desse fundo global, com valor reajustado em uma arquitetura de “fundo perdido” (doação ao invés de empréstimo) a ONU estima que os países do sul global precisarão de 5,9 trilhões de dólares para atingir suas metas climáticas até 2030.

Segundo porque o que podemos esperar dessa COP não são saídas do labirinto que nos trouxe até aqui, pelo contrário. Os caminhos desenhados apontam para um mergulho mais profundo na lógica de mercado através da capitalização dos serviços da natureza, tal como a fotossíntese (respiração das plantas que retira CO2 da atmosfera) para a precificar o carbono. A natureza se torna um nicho de mercado e com ele se fortalece uma grande cadeia de valor formada por bancos “sustentáveis” em bolsas de valores “verdes”, com perspectiva ESG, grandes empresas que agora anunciam o reuso de materiais e outros exemplos…

Tais caminhos passam pelo pressuposto de que se é o lucro o que importa e se a sua busca é que o merece ser protegida, tornemos a natureza em algo lucrativo e assim ela será protegida.

Terceiro porque o mercado de carbono tem tudo para ser a licença para continuar emitindo gases de efeito estufa. Afinal, o mercado de carbono não significa o interrompimento das emissões de gases de efeito estufa, mas a sua compensação. É um recado nítido: quem tem dinheiro para pagar pode emitir à vontade. É o self-service das emissões: pagou, emitiu. Essa proposta ignora o tempo de permanência de tais gases na atmosfera, podendo ficar por centenas de anos pairando sobre nós e de maneira quase invisível destruir a vida no planeta.

Dessa forma, as desigualdades internacionais permanecerão ao passo em que, de partida, o dinheiro já está concentrado no norte global: eles seguirão poluindo e desenvolvendo as suas forças produtivas e terão dinheiro para pagar pelas suas emissões. Enquanto aos países do sul global restará o papel de continuarem sendo os fornecedores de matéria prima, agora com a adição de mais um produto à sua matriz econômica já primária: a fotossíntese de suas plantas. E ainda vão tentar nos ludibriar dizendo “mas vocês ganham muito nessa jogada!”.

Como falamos acima, a criação desse novo nicho de mercado traz consigo uma cadeia produtiva e de gestão enorme, com potencial trilionário. Sim, o mercado de carbono é um cofre inexplorado que vai se abrir. No entanto, não há motivos para ilusões: os operadores desse sistema arrumam as regras do jogo para o dinheiro fluir no sentido da sua concentração, seja numa perspectiva “sociedade x empresas”, seja na perspectiva “sul global x norte global”, pendendo sempre para a segunda.

E se você ainda acha que é uma boa ideia eu te digo que quem vai pagar para compensar o carbono é você. Ou você acha que esse valor não será repassado para nós? Somos sempre nós que pagamos a conta. Empresas de ônibus e aviação já oferecem o serviço pago de compensação de emissões para os passageiros. O valor da compensação que as indústrias terão que pagar será repassado ao valor final do produto, não sejamos tolos a essa altura do campeonato.

Ecossocialismo ou barbárie!

Por isso, para conter danos maiores dessa crise climática nós precisamos sair do labirinto capitalista. Essa saída passa justamente pelo entendimento de que é o capital que está levando o planeta ao limite e colocando em risco a vida da humanidade e milhares de espécies. Precisamos de um planejamento de ações locais e globais que tenham os limites ecológicos do planeta como condicionantes para pensar como se estruturam a economia, a sociedade e tudo o que as envolve – produção de bens, produção de alimentos, urbanidade, gestão de resíduos, transporte, geração de energia, etc.

Somente com um planejamento ecossocialista será possível fazer a humanidade caminhar no sentido da transição energética verdadeiramente justa, da justiça climática, social e ambiental.

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