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Os evangélicos, as esquerdas e as eleições

Devemos “ir a todas as classes da população” como teóricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores. Ninguém duvida que o trabalho teórico dos social-democratas deva orientar-se para o estudo de todas as particularidades da situação social e política das diferentes classes.
Lenin. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento.

A cada dois anos, nas eleições presidenciais ou municipais, um espectro ronda as esquerdas: o voto evangélico. E como todo espectro, sua função é criar medo, assustar e impedir que se faça o que deve ser feito, pois com um fantasma à frente não se vê o caminho ou falta coragem para seguir adiante. Só resta fugir. A primeira fuga é considerar um segmento social e religioso, os evangélicos, indisputáveis politicamente. A segunda, consequência da primeira, é eleger o segmento como o responsável pelas derrotas políticas das esquerdas. Como espantamos esse fantasma? Ou como apresentamos o segmento real que tire o medo do espectro? 

Primeiro, quando pensamos sobre evangélicos e esquerdas, não podemos pensar em duas coisas separadas que são postas em relação. Os evangélicos também estão na esquerda, de duas formas: 1) Construindo ou participando de coletivos, organizações, sindicatos, movimentos e partidos de esquerda; 2) Votando, especialmente nas eleições presidenciais, em candidaturas de esquerda, ou justificando o voto por critérios de esquerda: agenda igualitarista, interesse coletivo, políticas públicas aos desfavorecidos, identidade popular. Poderíamos pensar ainda numa terceira forma, a de que os evangélicos compõem, majoritariamente, os segmentos sociais que interessa à esquerda organizar e mobilizar para a política emancipatória: classe trabalhadora e minorias políticas. 

Sei que as pessoas que estão lendo devem estar se coçando para perguntar: “mas os evangélicos não estão representando nos últimos tempos uma força política mobilizada pela direita?” Sim, e seguindo os mesmos parâmetros acima, também estão na direita através de organizações políticas e manifestando adesão programática pelo voto (liberalismo econômico, conservadorismo moral, nacionalismo reacionário). O que significa que temos que considerar um aspecto de longa duração (participação em organizações) e um aspecto mais conjuntural e que contempla os não organizados à direita ou à esquerda (o voto). Começarei pelo último, a face visível do fantasma que assusta a esquerda a cada eleição. 

Em 2018, enquanto Lula ainda era candidato, as pesquisas eleitorais indicavam vantagem do candidato petista sobre Bolsonaro no eleitorado evangélico. Lula tinha 30% e Bolsonaro 24% das intenções de voto entre evangélicos segundo a pesquisa Datafolha de 22/08/2018. A virada na adesão do voto evangélico à direita aconteceu na sequência da prisão de Lula e a eficaz criminalização da sua liderança política pelo lavajatismo jurídico e midiático. Mas essa virada não seria possível se uma parte dos setores evangélicos que impulsionaram o antipetismo não estivesse abrigada na política de conciliação de classes e interesses antagônicos dos governos petistas. 

Vamos comparar alguns cenários. Nas eleições de 2002 e 2006, lula ficou à frente no eleitorado evangélico, tinha um vice do partido da Universal, participou de eventos religiosos, prestigiou a inauguração da RecordNews, fez muitas concessões às lideranças evangélicas do Congresso. Em 2010, Marcos Feliciano coordenou o comitê da candidatura petista entre os evangélicos e na eleição de 2014, Edir Macedo declarou apoio a Dilma, que compareceu à inauguração do Templo de Salomão e em encontro com evangélicos recitou um texto bíblico muito usado pelo nacionalismo cristão: “feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. Em 2015, Edir Macedo compareceu no Palácio do Planalto na posse da presidenta eleita. Três anos depois, na campanha de 2018, o candidato à presidente pelo PT Fernando Haddad (PT) disse que Bolsonaro representava “o fundamentalismo charlatão de Edir Macedo e o Neoliberalismo desalmado de Paulo Guedes”. 

O que aconteceu entre 2014 e 2018? A crise econômica no final do primeiro mandato de Dilma acelerou uma “ruptura à direita” da conciliação de classes dos governos petistas. Várias forças sociais abrigadas nessa conciliação, incluindo as mega-igrejas e seus quadros políticos, engrossaram as fileiras da oposição e do discurso antipetista, sancionando religiosamente o golpe de 2016 contra Dilma, o lavajatismo jurídico e midiático de 2018 contra o PT e Lula e a eleição de Bolsonaro.  

Marcha para Jesus | 2019 | Carta Capital

O voto, portanto, é conjuntural. A adesão eleitoral evangélica foi e é disputada por cima, através de alianças eleitorais com lideranças religiosas, e por baixo, através de uma comunicação de campanha direcionada ao segmento. As formas adotadas até aqui dessa disputa, pelo alto e por baixo, devem passar pela crítica, devem ser substancialmente melhoradas, para não rifar direitos por causa das alianças, nem usar personalidades evangélicas como token para justificar a falta de diálogo cotidiano e regular com o contingente mais amplo de fiéis. Mas a face mais visível do fantasma, o voto, não assustaria as esquerdas sem a face invisível de todo medo: o desconhecimento. Tanto o medo de fantasmas quanto a crença em mitos perdem força quando entramos em diálogo com as evidências, com a experiência concreta das pessoas e com o acúmulo de conhecimento de temas que desconhecemos. 

Há algumas tarefas para a esquerda em relação aos evangélicos, algumas delas já em andamento, sobretudo pelas pessoas e organizações cristãs que compõe a esquerda, mas outras ainda por fazer. A primeira é um duplo “trabalho de base”: estratégias de formação entre evangélicos sobre o horizonte político da esquerda; estratégias de formação entre quadros da esquerda sobre religião e política em geral, e sobre evangélicos em particular. A segunda, a compreensão de que os evangélicos nos anos não eleitorais continuam sendo sujeitos políticos, integrantes da classe trabalhadora e das minorias políticas e que, portanto, não podem ser esquecidos da disputa de rumos da sociedade. Os anos não eleitorais são os momentos decisivos de aproximação, porque menos contaminados pela polarização das eleições. Terceiro, e creio que essa é uma perspectiva já presente nas esquerdas, os evangélicos não serão disputados apenas enquanto pessoas religiosas, mas como integrantes da sociedade. Nesse sentido, avanços no conjunto da sociedade de pautas e agendas da esquerda atravessam a experiência religiosa e o modo como as pessoas religiosas se posicionam politicamente. 

Não menos importante, no entanto, os avanços dos progressistas nas disputas internas com os setores conservadores no campo religioso, que muitas vezes se dão numa linguagem especificamente teológica, impulsionam a inserção de religiosos nas lutas sociais emancipatórias, seja nas organizações e movimentos de esquerda, ou em frentes religiosas de mobilização por direitos e justiça social. Na experiência de muitas pessoas, a igreja os tornou militantes, os partidos e movimentos chegaram depois. Aqui também há um importante trabalho de base dos cristãos progressistas de leitura popular da bíblia e de reflexão teológica e pastoral a partir da condição de opressão e luta por justiça. Trabalho que vem de uma longa tradição, está sendo atualizado e deve ser ampliado para alcançar mais comunidades e pessoas religiosas. 

As ideias aqui apresentadas não são nenhuma novidade no debate, seja nas esquerdas, seja entre evangélicos progressistas. É possível que não alterem em nada a conversa sobre esquerdas e evangélicos, mas espero que ao menos incentive que a conversa continue de um patamar mínimo que não seja o medo.

Zózimo Trabuco. Professor de História (UFOB). Autor do livro “À direita de Deus, à esquerda do povo”: Protestantismos, esquerdas e minorias (Sagga). Membro da Igreja Batista Nazareth (Salvador-BA). Militante do Subverta/PSOL.

Sobre subvertacomunica (58 artigos)
Organização Política Ecossocialista que atua para transformar o mundo, acabar com todo tipo de exploração, opressão e destruição do planeta!

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