Editorial: um ano do 8 de janeiro
Há um ano, a democracia brasileira enfrentou um severo ataque golpista em Brasília, naquilo que pode ser considerado a maior ameaça anti-democrática em nosso país desde a ditadura militar. Uma semana após a posse do presidente Lula, testemunhamos cenas de depredação, violência e ódio que marcaram a capital nacional. O 8 de Janeiro entra para a história, por um lado, como uma tentativa de ruptura institucional efetuada pela extrema direita bolsonarista e neofascista e, por outro, confirmando que a democracia construída em nosso país ainda é frágil e precisamos estar alertas aos ataques à sua existência. Por diversos fatores, como a não adesão internacional, as forças militares e o empresariado divididos, a vitória nas urnas do governo Lula e a mobilização dos movimentos sociais populares, venceu mais uma vez a defesa da democracia e o movimento golpista fracassou.
Em 2022, vivemos a eleição mais importante deste século, alcançando uma vitória fundamental ao retirar Bolsonaro e sua cúpula do poder executivo federal. Graças à luta coletiva e ampla mobilização, impusemos não só uma derrota eleitoral a Bolsonaro, mas também barramos nesse momento sua intenção golpista que se materializou no triste dia 08 de janeiro de 2023.
O ataque dos golpistas aos Três Poderes, e não apenas à presidência, teve uma resposta unificada, incluindo os governos estaduais, em defesa do Estado Democrático de Direito. Nossa democracia, ainda frágil e incompleta, que, de fato, nunca se consolidou nas favelas, periferias, territórios indígenas e quilombolas Brasil afora, resistiu em um momento de grande tensão. Os golpistas não aceitaram o resultado das urnas e tentaram tomar o poder à força, mas a resposta rápida e coordenada dos poderes executivo, legislativo e judiciário conseguiu deter o movimento.
Não podemos subestimar a gravidade do ocorrido no 8 de Janeiro, como o papel conivente das frações das Forças Armadas bolsonaristas, as omissões deliberadas do GSI e da Polícia Militar do DF no 8J e o possível complô da ABIN em casos de espionagem ilegal a opositores do ex-governo. Também precisamos considerar as diversas ações e empreitadas golpistas ao longo do governo Bolsonaro e no processo eleitoral de 2022 e subsequentes, destacando a inércia dos policiais militares em atos da extrema direita nas rodovias e acampamentos organizados em diversas regiões do Brasil, além do plano antidemocrático da Polícia Rodoviária Federal no 2° turno das eleições. A minuta do golpe encontrada na casa de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, é mais um elemento que destaca a seriedade do desfecho do ataque à democracia em 8 de janeiro.
A responsabilidade política de Bolsonaro é inequívoca, e sua responsabilidade jurídica como instigador e autor intelectual desses atos está em julgamento, conforme indicou o relatório da CPMI do 8 de Janeiro. Atualmente, 30 pessoas foram condenadas por atentar contra a democracia na tentativa golpista. Contudo, é essencial punir os líderes e responsáveis pelo financiamento desses atos, incluindo, também, os parlamentares e figuras públicas que apoiaram e estimularam a barbárie daquele fatídico dia. Além disso, é fundamental responsabilizar os financiadores de uma rede de desinformação e submundo da extrema direita que incentivou essas ações e continua ativa, ameaçando seus opositores políticos e a democracia formal.
Vale relembrar que, no dia seguinte ao 8 de Janeiro, milhares de pessoas em todo o país já ocupavam as ruas e se manifestavam contra os ataques golpistas. Os atos foram organizados por centrais sindicais, partidos políticos e movimentos sociais. Hoje, a base social bolsonarista ainda permanece forte e atuante, o que deve nos manter alertas para defender a democracia brasileira de possíveis ameaças golpistas, e organizades em uma estratégia política ecossocialista para o aprofundamento da nossa democracia e erradicação do neofascismo no Brasil. A apuração das responsabilidades do atentado é imperativa para impedir novas tentativas de golpe, além da necessidade de avanços sociais e políticos estruturantes no governo Lula, que rompam com o neoliberalismo.
É nosso dever histórico seguir de maneira articulada com os movimentos e organizações sociais, mobilizando as forças de esquerda para responsabilização de Bolsonaro e seus apoiadores golpistas. Precisamos seguir na defesa de um programa de ampliação dos direitos sociais e humanos, de radicalização da democracia e que derrote a agenda neoliberal que segue influenciando e impedindo políticas públicas para superação das desigualdades sociais. É fundamental um programa de proteção do meio ambiente, povos originários e tradicionais, que supere o modelo de desenvolvimento capitalista responsável pelas mudanças climáticas e suas manifestações devastadoras, portanto, um programa ecossocialista. Por isso, iremos às ruas no dia 8 de janeiro de 2024 reafirmar: Sem anistia! Seguiremos na luta na defesa da democracia e da classe trabalhadora em toda sua diversidade, e para que o governo Lula avance nessa direção.
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