De pé e atentes à emergência climática

Por Gil Puri*

O ano de 2024 foi marcado por extremos climáticos. O país enfrentou meses sob uma densa camada de fumaça causada por incêndios em diversos de nossos biomas, com ênfase na Floresta Amazônica e no Cerrado. Além disso, vivemos a pior seca de nossa história recente, que ainda persiste, enquanto o Rio Grande do Sul foi devastado por chuvas intensas. O ano terminou como o mais quente já registrado.

Já os primeiros dias de 2025 têm sido marcados por chuvas intensas em boa parte do país. No estado de São Paulo, fortes chuvas afetaram o fornecimento de água para parte da capital e da cidade de Santo André, na região metropolitana, segundo informou nesta quarta-feira (08/01) a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Já o litoral paulista também sofreu com o registro de 280 milímetros de chuva em apenas 72 horas na cidade de Peruíbe, de acordo com a Defesa Civil estadual, deixando 465 pessoas desabrigadas. O Espírito Santo também foi prejudicado pelos temporais com 122 milímetros de precipitação em Serra, na Grande Vitória.

Ao menos 51 municípios baianos foram atingidos por temporais, a maioria com alagamentos. As cidades de Jaguaquara e Maiquinique, ambas localizadas no sudoeste da Bahia, decretaram situação de emergência por causa da forte chuva que atingiu parte do estado no fim de semana. De acordo com a Prefeitura de Jaguaquara, o desastre climático fez com que 60 pessoas ficassem desabrigadas e 160 desalojadas. Em Maiquinique, choveu 120 milímetros, sendo 75 em apenas três horas na tarde do sábado. A gestão municipal estima que 800 pessoas foram afetadas pelos alagamentos e dez famílias ficaram desalojadas.

Em apenas uma semana, as mortes em decorrência das chuvas em Minas Gerais atingiram 24 pessoas. O número foi atualizado pela Defesa Civil estadual nesta segunda-feira (13). A cidade de Poções, que ainda não decretou estado de emergência, registrou 40 pessoas desabrigadas e 76 desalojadas, com pessoas tendo de ser resgatadas em meio aos alagamentos. O governo do estado confirmou que, somente neste domingo (12), 11 pessoas morreram durante temporais em Ipatinga e Santana do Paraíso, no Vale do Rio Doce. Uma vítima está desaparecida entre os escombros de uma casa que desabou após um deslizamento de terra na região. Já são 56 municípios em situação de emergência por causa das chuvas, e cidades do Vale do Rio Doce já decretaram situação de calamidade pública. Ao todo, 1.497 pessoas já ficaram desalojadas no estado, e outras 279 com necessidade de abrigo público.

Na cidade de Recife, em apenas 12 horas chove mais do que deveria chover durante todo o mês de Janeiro. A capital pernambucana ocupa a 16ª colocação das cidades com maiores riscos provocados pelo avanço do mar. A maré alta, que chegou à elevação de dois metros, em conjunto com as tempestades, deixaram diversas avenidas alagadas. Em algumas comunidades as águas invadiram casas e pessoas foram registradas com água até os joelhos.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta de precipitações intensas em todas as regiões do Brasil, neste início de 2025. O Nordeste e o Centro-Oeste devem ser as regiões mais prejudicadas. Grande parte dos estados brasileiros estão sob alerta laranja para as chuvas, que podem chegar a 100 milímetros por dia, além da possibilidade de ventos intensos de até 100 km/h, com risco de queda de galhos de árvores, mais alagamentos e cortes de energia elétrica.

Os eventos climáticos extremos do início deste ano reforçam uma dura realidade: a inação diante das mudanças climáticas tem um preço alto. Incêndios, nevascas e temporais sempre existiram, mas a intensidade atual é um alerta nítido: Precisamos agir já! Com o aumento das temperaturas globais podendo ultrapassar 2,5°C, os impactos serão devastadores, incluindo secas severas, inundações, fatalidades e destruição. O direito à vida é universalmente reconhecido como um direito humano fundamental; contudo, a cada ano, 150.000 mortes prematuras são ligadas à crise climática, um número que deve aumentar com o agravamento em curso. A crise no clima ameaça o direito à água e ao saneamento, contribuindo para crises hídricas como a da Bolívia, onde as geleiras estão recuando, e o racionamento de água é necessário nas principais cidades. O direito à saúde também é ameaçado, não apenas por mortes prematuras, mas também pelo aumento da incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares, desnutrição, crescimento retardado, desperdício, alergias, lesões e doenças mentais – como é o exêmplo da ansiedade climática. As mudanças no clima se configuram como a maior ameaça à saúde global do século XXI e pode reverter cinco décadas de progresso na saúde global, principalmente porque coloca em risco o direito à alimentação, segundo relatórios da ONU.

Os efeitos adversos da mudança climática serão sentidos com mais força nos setores da população que já se encontram vulnerabilizadas devido à falta de acesso à políticas públicas com efeitos nos lugares onde vivem como favelas, zonas costeiras ou rurais, a pobreza, o gênero, a idade, o pertencimento a povos indígenas, a raça ou origem étnica, a origem nacional, a condição de migrante, entre outras. Estimativas das Nações Unidas apontam que 80% das pessoas refugiadas por fenômenos relacionados com o clima são mulheres e crianças. Além disso, os efeitos adversos da mudança climática estão exacerbando a migração, criando nações inteiras de refugiados climáticos com impactos significativos para os povos originários e as populações negras.

Para enfrentar esses desafios, é crucial preparar as cidades para uma maior resiliência, investindo em infraestrutura capaz de absorver os choques climáticos e treinando as populações para lidar com os impactos. A adaptação e a mitigação são passos indispensáveis para criar ambientes urbanos preparados para o futuro. Paralelamente, a transição para economias de baixa emissão de carbono precisa ganhar força, priorizando soluções baseadas na natureza, energias renováveis e investimentos em políticas socioambientais. No entanto, decisões como o recente abandono da Net-Zero Banking Alliance por grandes bancos americanos evidenciam retrocessos preocupantes. Iremos enfrentar o fascismo do governo estadunidense, disposto a avançar com a exploração de combustíveis fósseis e retrocedendo em diversas políticas e protocolos ambientais internacionais. Essa postura contradiz a necessidade de alinhar os modelos econômicos às metas globais, como limitar o aquecimento a 1,5°C.

No Brasil, a estreita relação entre a extrema direita e o ruralismo vai muito além da negação da democracia. Ela procura destruir a base da confiança no conhecimento científico, promovendo um atentado contra o futuro de um país cada vez mais vítima dos eventos extremos. Há mais de duas décadas cientistas da Embrapa, da Unicamp e de outras instituições vêm alertando para o que aconteceria com a agropecuária brasileira num cenário de aquecimento da Terra: temperaturas extremas no Centro-Sul podem reduzir safras, chuvas demais na região Sul e de menos em Mato Grosso aumentariam o risco climático de forma crônica e poderiam eliminar safras de grãos no Centro-Oeste. Seria preciso adaptar cultivares, proteger cursos d’água e lutar por cortes de emissões de gases de efeito estufa no mundo inteiro. Porém, o agro brasileiro fez o oposto: passou a investir contra as políticas ambientais e climáticas e financiou campanhas negacionistas.

Em contraponto, a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados é a mais comprometida com a proteção do meio ambiente, os direitos dos povos indígenas e dos trabalhadores rurais brasileiros. Ainda há tempo de evitar o pior das mudanças climáticas, mas esse tempo está se esgotando. É preciso agir já! Segundo o IPCC, a adoção ampla de medidas com custo abaixo de US$ 100 por tonelada de gás carbônico já seria suficiente para reduzir pela metade as emissões globais de GEE até 2030, comparado a 2019. As opções estão aí, só falta vontade para implementá-las. Uma transição energética justa e uma política socioambiental efetiva são apenas os primeiros passos para se mitigar a calamidade que o capitalismo nos tem imposto. Porém, para superar a atual crise climática, precisamos ter o ecossocialismo como perspectiva. Se não, estaremos caminhando para a extinção.

Gil Puri é militante do Subverta Pernambuco.


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