Machismo e omissão: de quem é a responsabilidade?
Por Isabella Oliveira – militante da Executiva Feminista do Subverta, jornalista e assessora de comunicação da Bancada Feminista de São Paulo
Se você esteve fora da internet nos últimos meses e, especialmente, nos últimos dias, talvez não tenha acessado dois debates sobre violência de gênero e pacto da masculinidade. O episódio “CPF na nota?, do podcast Radio Novelo Apresenta chacoalhou a internet e o mundo editorial quando a escritora Vanessa Barbara narra os episódios que levaram ao fim de seu casamento e o caso da francesa Gisèle Pelicot e o horror da violência impetrada por seu ex-marido. Mas o que esses dois episódios têm a ver?
Ainda em 2024, o nome de Gisèle Pelicot virou sinônimo de força na luta contra a violência contra a mulher. A francesa de 72 anos descobriu, em uma delegacia de polícia, que foi sistematicamente drogada e estuprada por seu marido, que a oferecia a outros homens para também a violentarem, por mais de dez anos. Seu então marido foi detido por filmar embaixo da saia de mulheres no metrô de Paris e iniciou-se uma série de investigações que levaram a polícia a periciar seus aparelhos eletrônicos e encontrar as imagens das violências contra Gisèle.
O caso abalou mulheres no mundo inteiro. O crime já foi julgado e seu ex-marido, condenado a 20 anos de reclusão. Outros 50 homens também foram condenados – embora há indícios de que mais de 80 foram algozes de Gisèle. Homens comuns, que chegavam em sua casa para prestar serviços do cotidiano. Encanadores, mecânicos, entregadores, pais de família, cidadãos de bem. Suas defesas argumentaram que os acusados acreditavam que Gisèle estaria conscientemente participando de uma orgia, ainda que seu corpo inerte e visivelmente desacordado apontasse o contrário.
Defesa essa que não é inédita no mundo da violência. Os amigos do jogador Robinho, condenado por estupro coletivo com um grupo de amigos na Italía contra uma jovem albanesa e que atualmente cumpre pena no Brasil, se valeram do mesmo argumento. O que choca, ao analisar esses e outros episódios de violência contra mulher, é uma pergunta muito óbvia, que nunca deveria sair de nossas mentes: quem é responsável por impedir um episódio de violência contra a mulher?
No caso de Gisèle, é de se revirar o estômago pensar que mais de 80 (oitenta) homens acharam completamente corriqueiro e razoável manter relações sexuais com uma mulher desacordada. A quem pertencia o corpo de Gisèle? E mais: quem poderia ter interrompido um ciclo de abusos como este? Ninguém, nenhum destes 80 homens, para além do óbvio, se negou a partir de um ato de violência, mas também não se dignou a denunciar (ou pelo menos avisá-la) do que ocorria enquanto ela estava desacordada.
A espiral de questões envolvendo a violência doméstica é muito mais complexa. Um levantamento da ONU Mulher, ainda à época da pandemia da covid-19, apontou que 1 em cada 3 mulheres será vítima de violência doméstica ao longo da vida. Essa pandemia silenciosa obviamente não será interrompida de maneira individual, a partir dos fortalecimentos de laços e pactos de confiança. É preciso aprofundar o debate sobre quais políticas públicas são necessárias para enfrentar a questão com seriedade, desde casas de acolhimento, delegacias especializadas, profissionais capacitados, serviços jurídicos especializados para o atendimento primário e políticas que incidam no sistema de educação desde a sua base para formar novas gerações capazes de não perpetuar ciclos de violência.
Mas o que o caso da Gisèle levantou de horror e choque vai para muito além da discussão sobre seu agressor doméstico, de dentro de casa, que muitas vezes é o pai de família, o irmão, o tio.
Ele fala muito sobre de quem é o corpo da mulher. À quem ele pertence. Não há muito tempo atrás, era previsto pela constituição brasileira que, para uma mulher viajar sozinha ou abrir conta em um banco, por exemplo, ela precisava da autorização do marido. Gisèle foi ofertada a estranhos pelo seu próprio marido como se seu corpo pertencesse a ele. Como se os laços do matrimônio autorizassem que ele a drogasse, a estuprasse.
E aqui, o pacto da confidencialidade masculina tornou outras dezenas de homens agressores assim como o seu marido. O pacto da cumplicidade e do silêncio permitiu que a violência se perpetuasse e, cada vez mais, se agravasse. Gisèle passou anos tendo dores em decorrência dos estupros que não sabia que aconteciam e, para completar o show do horror, era seu ex-marido que a acompanhava nas consultas médicas.
A autora Vanessa Barbara contou no referido episódio da Rádio Novelo sobre como se deu o fim do seu casamento a partir de uma traição. Sem querer dar grandes spoilers, e recomendo que vocês escutem o podcast, o indício da traição começa a aparecer quando ela acessa uma conta registrada no CPF do então marido e muitas mentiras e manipulações passam a acontecer a partir daí. Mas esse não é o foco da história. O foco da história é o fato de que o então marido fazia parte de um grupo, com um total de 15 amigos, no qual eles comentavam sobre suas traições, contavam vantagens de seus feitos inclusive ranqueando mulheres, faziam chacota, destilavam todo o mais puro suco da misoginia, do desprezo por mulheres com muito orgulho de suas próprias heterossexualidades. Todos homens bem nascidos, brancos, com influência no mundo editorial. Ou seja, todo um grupo de homens progressistas, com muito acesso à informação, assistia passivamente uma série de abusos e manipulações e não só se omitia, mas regozijava com a mera anedota da traição e da manutenção do casamento mesmo assim.
Diferentemente do caso de Gisèle, estes homens não foram agentes da violência diretamente. Não foram eles que violaram o acordo de um casal. Mas fica a pergunta: eles, assim como tantos outros, não são no mínimo irresponsáveis ao não comunicá-la sobre o que acontecia? Não estamos aqui para desresponsabilizar, de forma nenhuma, o agente de uma agressão. Não estamos aqui para cair no erro crasso de acreditar que nenhum problema estrutural será resolvido com iniciativas individuais. Não se combate o machismo relação a relação. O objetivo aqui é levantar uma discussão sobre quando o episódio de violência é muito próximo, e todos os dados apontam que todos nós conhecemos mulheres vítimas de violência. Será mesmo que assistir passivamente, ainda que reconhecendo o problema enquanto estrutural, é a única coisa que pode ser feita?
Poderia passar longas linhas discorrendo sobre todos os aspectos machistas que permearam o término dessa relação, de acordo com o que foi relatado por Vanessa. Sem nenhuma ode à monogamia como se ela fosse uma instituição infalível que protegesse mulheres (quando a construção histórica na prática mostra justamente o contrário), o aspecto da quebra da confiança de um acordo pré-estabelecido entre as partes e a consequente exposição por seu ex-marido parece configurar como um mero detalhe a um grupo de homens que acredita, fielmente, que a eles tudo é permitido. E não estamos falando de qualquer grupo, mas sim de homens brancos, progressistas, com muito poder em seus respectivos ciclos. Homens de esquerda, desconstruídos, que hoje se valem de um pedido de desculpas e reconhecimento de um “erro”.
Talvez a maior contribuição que o movimento feminista ao longe de décadas colocou para a organização da esquerda e do debate social como um todo é a discussão de que o pessoal é político. Não existe relação em âmbito privado que se materialize fora do terreno social onde ela se constrói. A forma como nos relacionamos dentro de nossas casas, nas nossas relações, está necessariamente atravessada pelas mesmas estruturas que formam a sociedade como um todo. Esse mesmo entendimento levou a Lei Maria da Penha a entender a violência doméstica como um problema do estado, social e público, e não algo “do casal”. É de responsabilidade social e coletiva, do poder público e do convívio social assegurar a integridade das mulheres. Nessa mesma premissa, é preciso retomar o debate sobre interferir.
Não se rompe o ciclo da violência de forma fácil – ou sequer imediata. Da mesma forma, revelar agressões sofridas é uma barreira difícil de ser transposta, pois envolve sentimentos profundos como medo e vergonha. Gisèle demorou mais de dois anos para conseguir assistir às cenas de seus estupros. Quando o fez, decidiu que as imagens seriam sim exibidas nos tribunais como parte das provas para levar à condenação de seus algozes. “A vergonha deve mudar de lado” virou frase símbolo de uma mulher que topou a exposição para conseguir alguma forma de responsabilização sobre os culpados.
Vanessa tem enfrentado um verdadeiro escrutínio público, questionando sua honra, suas motivações para contar esta história tanto tempo depois de ela ter acontecido. Quando mulheres decidem colocar suas histórias de violência no mundo, essa é resposta quase imediata. Questionar a vítima, descredibilizá-lá, chamá-la de louca, surtada, interesseira ou exagerada é só mais uma página na cartilha do machismo e da misoginia que segue sempre o mesmo roteiro para defender os seus. “O trauma é mais uma cicatriz do que uma história”, ela diz.
As mulheres precisam de ajuda. As mulheres precisam de política pública pela erradicação da violência de gênero. As mulheres precisam que o conjunto da sociedade e, em especial o Estado, se co-responsabilize pela quebra do ciclo da violência. Não é mais tempo de se omitir. Em caso de dúvida, mete sim a colher.
Mete a colher.
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Parabéns, Gisèle, parabéns, Vanessa! Exemplos que nos trazem esperança para o porvir em meio a uma realidade tão absurda, machista e cruel. Vozes pela nossa libertação.
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