Mais uma vez, feminismo

Imagem com fundo roxo com o texto Coluna Subversiva - Mais uma vez, Feminismo. Por Clarissa Alves da Cunha - Cientista social e militante do Subverta em verde claro.

Por Clarissa Alves da Cunha – Cientista social e militante do Subverta.

E se você realmente entendesse como o machismo funciona?

E se você realmente entendesse o que é machismo, não só como violência doméstica ou desigualdade salarial, mas como uma peça‑chave do sistema que organiza nossas vidas?

E se, ao falar de feminismo, estivéssemos falando, na verdade, sobre como manter a vida possível em uma sociedade em que a violência e a desigualdade social são consequência do próprio sistema, e que a destrói todos os dias?

Vivemos em um tempo estranho, a palavra “vida” aparece em slogans políticos, discursos religiosos e campanhas eleitorais, mas qual vida está sendo defendida, e por quem? O campo conservador diz proteger “a vida” quando ataca o direito ao aborto, mas é o mesmo que aprova cortes na saúde, no SUS, na educação pública, nas creches, nas políticas de cuidado, “vida”, nesse contexto, virou retórica vazia, enquanto a verdadeira vida, sustentada diariamente pelo trabalho invisível de milhões de mulheres, segue precarizada, adoecida, ignorada.

Machismo não é um erro do sistema, é parte dele.

A cultura machista não é um desvio de conduta, ela é funcional ao capitalismo, sustenta a divisão sexual do trabalho, naturaliza a sobrecarga feminina, justifica salários mais baixos e invisibiliza o trabalho de cuidado como se fosse amor, instinto ou algo sem valor.

É por isso que Nancy Fraser explica que a crise que vivemos hoje “ameaça o que conhecemos por vida”, essa crise é econômica, ambiental, mas acima de tudo civilizacional, e nos faz perguntar: quem sustenta a vida? Com que recursos? A que custo? Quem se apropria do excedente social que produzimos coletivamente?

Quando cuidar se torna um fardo individual.

No Brasil, 89 % das mulheres dizem ser responsáveis pelo cuidado de alguém da família, entre as mulheres negras essa proporção é ainda maior, cuidar, aqui, não é escolha, é destino social, e mesmo quando essas mulheres ingressam no mercado de trabalho continuam acumulando funções, o capitalismo explora essa força de trabalho sem redistribuir as tarefas de cuidado, que seguem sendo empurradas para dentro das casas, das mentes e dos corpos femininos.

Nos governos petistas, avançamos com políticas como o Bolsa Família, que reduziram a fome e a pobreza extrema, ampliaram acesso à escola e melhoraram vários indicadores sociais, mas mesmo essas iniciativas, fundamentais para defender a vida contra a miséria, ainda estão longe de um mundo sem machismo, porque não basta mitigar os efeitos do capitalismo, é preciso transformar sua base. Por isso, apesar das limitações, a defesa de projetos mais ousados continua necessária frente à ameaça conservadora, e deve vir acompanhada de uma agenda feminista que vá além do possível imediato.

É preciso urgentemente concretizar o Plano Nacional dos Cuidados nos estados e municípios entendendo que trabalho do cuidado é redundância, cuidar é trabalho. O cuidado é naturalizado como instinto, como se bastasse amor para sustentar a vida de forma contínua, quando, na verdade, o que está em jogo é um trabalho intensivo, cansativo, indispensável, mas sistematicamente desvalorizado. O sistema insiste em tratá-lo como obrigação moral, isso beneficia o capitalismo, que conta com trabalho gratuito e invisível, majoritariamente feminino, para manter a engrenagem girando.

Lucro acima da vida.

A lógica de fundo é nítida: o lucro vale mais que a vida. Aquilo que não rende capital é tratado como custo, e o capitalismo não valoriza a reprodução social porque ela não dá lucro imediato, portanto, a destrói. Mas essa destruição não é acidental: ela se apoia num regime histórico de roubo. O cuidado, como parte da reprodução social, é trabalho roubado de mulheres, especialmente negras e pobres, sequestrado por séculos de dominação patriarcal e escravocrata, e transformado em dever silencioso. O capitalismo apenas aprimorou essa engrenagem violenta e disfarçada.

É por isso que hoje, enquanto o sistema colapsa, as mulheres estão no limite do esgotamento. Sete em cada dez pacientes com ansiedade ou depressão são mulheres. O Brasil lidera o mundo em prevalência de ansiedade. Quase metade das brasileiras relatou transtornos mentais no pós‑pandemia. Um exemplo: creches públicas fechadas e ausência de acesso à rede de apoio familiar acabam por transferir para as mulheres a responsabilidade total, evidenciando que o verdadeiro problema não é falha individual, e sim ausência do Estado, que falha ao não oferecer políticas públicas, redistribuição de renda e estruturas coletivas para sustentar a vida comum.

Como Nancy Fraser pontua, “a luta para superar a crise atual exige decisões coletivas sobre como usar o excedente social que produzimos”, essa reflexão nos leva a uma questão ainda mais ampla, quem é considerado digno de viver e quem pode ser descartado?

Guerra, reprodução e controle, o corpo como campo de batalha.

A violência contra a vida também se manifesta com armas, não se pode discutir reprodução social sem considerar o belicismo e a militarização como estratégias de controle estatal e capitalista, o belicismo e a xenofobia sempre seguiram lógica masculina a serviço do projeto machista, essas estratégias atendem a essa ideia de pureza nacional e definem quem merece viver e reproduzir.

Na favela, o Estado aparece com fuzil, nas fronteiras com muro, na escola com policiamento, na maternidade com negligência seletiva, as guerras globais e conflitos internos não atingem todos da mesma forma, os primeiros a morrer sempre são os mesmos corpos: mulheres, pessoas negras, trans, imigrantes, populações empobrecidas, são esses corpos que o Estado insiste em controlar.

A Palestina hoje simboliza essa lógica de extermínio, o genocídio em curso revela cumplicidade entre capitalismo, colonialismo, patriarcado e racismo, o povo palestino, especialmente mulheres e crianças, sofre a destruição sistemática da vida, da cultura, da memória, defender a Palestina é defender a vida contra a máquina de guerra, é afirmar que nenhum projeto de nação, lucro ou “segurança” pode se sobrepor ao direito de existir.

A recente queda na aprovação de Donald Trump, em torno de 41% realizada pela Reuters/Ipsos após o ataque ao Irã parece refletir o crescente repúdio popular às guerras. 

Não há dados com recorte de gênero nessa recente pesquisa. Mas não podemos esquecer do papel das mulheres estadunidenses na luta pela paz e contra as guerras em seu país. Na Guerra do Vietnã, milhares de mulheres perderam maridos e filhos, ou conviveram com os traumas físicos e psicológicos dos que voltaram e muitas vezes se viram as responsáveis por esse cuidado sem o apoio estatal adequado. E sem dúvidas, os impactos econômicos dessa guerra afetou  particularmente as mulheres, especialmente as mulheres negras e mais pobres, que tiveram que assumir mais jornadas de trabalho. Não à toa, o movimento Women Strike for Peace, fundado em 1961, surgiu como resposta das mulheres ao militarismo e às armas nucleares, mostrando que defender a paz também é defender a vida.

Essa visão segue ecoando no feminismo anticapitalista atual, que entende a guerra como instrumento do patriarcado e do lucro. Os mesmos que exploram o trabalho mal pago das mulheres lucram com as bombas e bloqueios. Por isso, lutar contra o belicismo é lutar por um mundo em que a vida, e não o lucro ou o poder armado, esteja no centro das decisões políticas. As mulheres se mobilizam contra as guerras porque sabem que as guerras não terminam no campo de batalha. As guerras se infiltram em suas casas e seus corpos e se mantém muito depois do cessar fogo. 

Enxames que sustentam a vida: coragem para colocar o socialismo como horizonte.

Diante de tanta destruição, é fácil se sentir só, mas as mulheres nunca estiveram verdadeiramente sozinhas, em todo canto elas se reúnem, nas cozinhas comunitárias, nos grupos de mães, nas redes de apoio entre vizinhas, nas assembleias feministas, nos coletivos de luta, nos encontros políticos que não pedem permissão ao Estado ou reconhecimento do mercado.

Esses encontros não são apenas espaços de desabafo, são formas de resistência, ali a escuta vira estratégia, o afeto vira força, o cuidado vira política, e é por isso que incomodam tanto, porque reorganizam o mundo a partir da vida e não do lucro.

As mulheres brasileiras constroem há décadas uma luta decisiva pela democracia, pelos direitos e contra o imperialismo, organizando-se desde o início do século XX, no campo, nas favelas, sindicatos, movimentos populares, nas Ligas Camponesas e em campanhas contra o autoritarismo. Foram protagonistas na resistência à ditadura militar, nas Diretas Já, na Constituinte, nas marchas contra o neoliberalismo e no levante do #EleNão, que mobilizou milhões contra o machismo e a extrema-direita. Hoje, esse caminho ganha novo fôlego e surgem novas mobilizações.  O MEL, Mulheres em Lutas, é um exemplo disso. O movimento nasce para articular mulheres de todo o Brasil em defesa da justiça social, dos territórios e da vida, espalhando esperança, organização e resistência em cada canto do país.

Nós, mulheres anticapitalistas, nos organizamos em rede, sustentamos umas às outras, defendemos o coletivo e produzimos alimento político em tempos de escassez, porque “quando uma mulher avança, ninguém retrocede”. 

Diante de um cenário político que tende a conter o desejo de transformação em nome da estabilidade, devemos sonhar com mais ousadia e agir com mais coragem, não se trata de negar alianças necessárias para manutenção da democracia, mas de recusar que elas sejam o limite do possível, a crítica não é um entrave, é motor da história. Reconstruir a esperança como prática coletiva, e isso só será possível se ousarmos romper com a lógica da contenção e recolocarmos o futuro em nossas mãos.

Nosso feminismo é enxame, é cuidado que luta, é política que sustenta a vida, e acima de tudo, é semente de futuro.


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