Por mais pessoas trans* construindo o ecossocialismo! Por mais ecossocialistas construindo a luta trans*!
Nesse 29 de Janeiro, nós da Subverta ecoamos as palavras de Emi Koyama, em seu aclamado Manifesto Transfeminista: “cremos que cada indivíduo tem o direito de definir a sua própria identidade (de gênero) e esperar que a sociedade a respeite. Tal inclui também o direito de expressar o gênero sem medo de discriminação ou violência.”
O Capitalismo se estruturou sobre um longo processo de ruptura entre os trabalhadores e a terra. Essa separação, fundadora da distinção entre campo e cidade, foi fundamental para a alienação dos trabalhadores livres de seu principal meio de produção: a terra, e a criação da massa de trabalhadores urbanos usurpados de seus territórios e modos de vida: o proletariado. Esse sistema se desenvolve apenas na medida em que consome as fontes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.
A colonialidade, no entanto, não para por aí. A ruptura entre trabalhador e território se expande também na ruptura entre corpo e mente. O pensamento colonial se embrenha nas nossas subjetividades e naturaliza a cisgeneridade e a heterossexualidade, nos negando os meios de produção de nossos próprios gêneros e sexualidades. Nos negando a autonomia sobre nossos próprios corpos-territórios. Mas já passou a hora de retomarmos o que sempre foi nosso: nossas identidades, nossos corpos, nossos territórios e nosso futuro!
Não é mais possível ignorar os efeitos da Emergência Climática em nossas vidas. Entendemos que só haverá futuro trans* (ou cis) quando derrubarmos o Capitalismo e a economia fóssil, e estruturarmos no lugar outras formas de nos relacionarmos, com nós mesmes, com es outres, e com o meio ambiente. Modos de vidas que são novos, mas também são ancestrais.
Ao contrário do que pensa o senso comum, as identidades trans* não são fruto dessa modernidade, mas têm um fundamento ancestral e difundido em diversos povos e territórios, possuindo lógicas diversas. No Brasil temos duas figuras essenciais: Tybyra Tupinambá, primeira pessoa indígena assassinada neste território por sua dissidência sexual e de gênero; e Xica Manicongo, reconhecida a primeira travesti não-indígena no Brasil.
Concordamos com Hailey Kaas, em seu célebre texto “O que é transfeminismo?” quando afirma que “não existe uma única forma de ser trans. As pessoas trans são múltiplas, com desejos, percepções, sentimentos múltiplos, assim como as pessoas cisgêneras também o são. As vivências das pessoas trans* são interseccionadas por outros tipos de opressão como racismo, preconceito de classe, capacitismo, gordofobia, machismo e homofobia (entre outros) que constroem as vidas (ou não-vidas) dessas pessoas nos espaços sociais”.
Nós estamos em todos os espaços sociais, queiram vocês ou não! Nós estamos nos parlamentos, como Érika Hilton; nas Assembleias Legislativas, como Carolina Iara; nas Câmaras Municipais, como Atena Beauvoir; nas gestões governamentais como Dayanna Louise; compondo cargos no executivo como Symmi Larrat; na música, como Linn da Quebrada, Liniker e Jupi77er; nas universidades como Bruna Benevides, Letícia Nascimento, Andreone Medrado e T. Angel; nos esportes, como Leonardo Peçanha e Tifanny Abreu; nas artes como Fefa Lins e Jota Mombaça; na literatura como Anderson Herzer, Tom Grito e Amara Moira. Compreendemos que uma sociedade mais justa é uma sociedade construída lado à lado com a diversidade de sexo, de gênero e étnico-racial.
O reconhecimento da importância da colaboração de pessoas trans* para a política de maneira ampla é uma reparação histórica à diversas que vieram antes de nós, como Kátia Tapety, primeira parlamentar trans no estado do Piauí em 1992. Por isso honramos toda a história de luta da população trans* organizada, que lutou pelo reconhecimento de suas identidades e pela garantia de direitos civis e resistiu à repressão da ditadura militar no Brasil, tendo desenvolvido diversas ferramentas para a superação de suas vulnerabilidades, como o bajubá, uma linguagem utilizada pelas travestis para se comunicarem em segurança; e a fundação de casas de acolhimento, como fizeram Brenda Lee e Indianarae Siqueira.
Saudamos a ASTRA-Rio (Associação de Pessoas Travestis e Transexuais do Estado do Rio de Janeiro), primeira organização de travestis no Brasil, que teve papel central na luta por políticas de cuidado e prevenção em saúde, pressionando o governo federal em 1992 a criar e executar políticas de combate ao HIV/AIDS, e a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), organização com mais de 25 anos de luta pelos direitos trans no Brasil.
Saudamos também a Rede Trans Brasil, que tem desempenhado papel fundamental junto à comunidade, assim como a ABRANB, Associação Brasileira Não-Binárie, e o IBRAT, Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, que fez história ao mobilizar mais de 10 mil pessoas às ruas em 2024 e realizará a III Marcha Transmasculina no próximo dia 29 de Março, em São Paulo, com o lema “Transmascs em marcha por direitos já!”.
Temos orgulho em ter em nossas fileiras Yudi Batista, homem trans que é coordenador nacional do Movimento de Homens Trans (MOVIHT) e reside em Pernambuco, onde concebeu e executa o projeto “Trans-Formando Terra e Vidas” que traz formação em agroecologia, agricultura urbana e agricultura familiar para homens trans das periferias da Região Metropolitana de Recife. Assim como Mar Revolta, travesti que concebe e executa formação em educação climática, além de utilizar a arte como ferramenta de contestação política em suas performances.
Temos grandes desafios na atualidade: superar a violência transfóbica continua sendo uma prioridade no país que mais mata pessoas trans* no mundo. Mas para além disso, lutamos por cotas nas universidade públicas, pelo direito à educação com reconhecimento das identidades trans* para superar a evasão escolar, pelo acesso ao trabalho formal com todos os direitos garantidos, para que haja uma reestruturação das políticas de previdência social que possam atender às especificidades da diversidade de gênero que constitui a classe trabalhadora brasileira e por políticas de adaptação e mitigação climática, para diminuir as vulnerabilidades da população trans* e para que seja possível sonhar um futuro para todes.
Descubra mais sobre Subverta
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário