Enfrentar a barbárie e semear a esperança
Há uma virada estonteante na conjuntura mundial. A globalização neoliberal que chegou a ser vendida como o fim da história desaba pelas mãos de seus próprios artífices. O presidente da Venezuela está sequestrado em Nova York. O livre comércio está sendo superado pelo controle militar das mercadorias. Guerra Mundial e ameaça atômica voltam a ser notícia no jornal.
A gravidade dos fatos que se acumulam diante dos olhos não podem nublar nossa capacidade de enxergar de onde eles vieram, quais foram suas causas e antecedentes e para onde eles tendem a nos levar. Esta consciência é o primeiro passo contra o fatalismo que nos atrapalha a sair deste atoleiro. Esta nota de conjuntura busca este exercício de análise realista combinado com prospecção de futuro em busca de caminhos alternativos.
O capitalismo mundial passa por uma crise estrutural que se estende para todas as dimensões da vida. A dificuldade de reprodução do capital é agravada pela destruição ecológica sem precedentes, por uma grave crise de subjetividade e pela ameaça de destruição mútua assegurada pelos novos arsenais bélicos. O genocídio palestino alargou os deslimites da barbárie mostrando ao mundo inteiro que não podemos contar com qualquer resquício de humanidade e razoabilidade quando lidamos com o imperialismo. Esta crise estrutural só pode ser resolvida mudando o quadro geral de referência, ou seja, superando o sistema social global, o capitalismo.
Como nos alertou Gramsci, nesse interregno ressurge um monstro terrível: as experiências históricas demonstram que na crise do capitalismo, a democracia liberal se mostra insuficiente, e frações das classes dominantes recorrem ao fascismo. Uma liderança autoritária, personalista, vista como acima da lei para restaurar a ordem e resgatar a moral ferida, é colocada no poder com apoio de segmentos da classe média, para esmagar os inimigos internos, enfraquecer o poder dos trabalhadores, aumentar a perseguição aos oprimidos e enfrentar os inimigos externos, reais ou imaginários. Esta tem sido a receita em um número amplo o suficiente de países para afirmarmos que o fascismo é um fenômeno estruturante desta época histórica.
É nos EUA que o neofacismo toma sua forma mais acabada e perigosa. A estratégia MAGA (Make America Great Again) parte do orgulho imperial ferido da maior potência global para projetar uma nova agenda imperialista e neocolonial. A resposta neoliberal para a crise estrutural criou um ressentimento na classe média-baixa estadunidense e em trabalhadores de regiões industriais falidas. Conforme a desigualdade aumentava, alguns estratos ascendiam de posição enquanto o estrato mais baixo da classe lutava para não cair. Essa classe média-baixa, formada por proprietários de pequenos e médios negócios, gerentes de baixo escalão de grandes empresas junto de parcelas da classe trabalhadora branca de regiões industrialmente degradadas tiveram suas frustrações econômicas reais canalizadas pela narrativa nacionalista, racista e anti-elite da ideologia MAGA para destruir o “sistema”. Em resposta à crise de 2008-2009 a administração Obama ofereceu resgates trilionários para os bancos, e algum alívio para a hipoteca dos mais pobres, o que reforçou esta tendência interna, ao mesmo tempo que fazia os EUA perder posições geoeconômicas para a China.
O segundo mandato Trump não é mais do mesmo, pois as condições materiais levaram a uma mudança significativa no seu apoio pelas classes dominantes. Algumas Big Techs e representantes do mercado financeiro, que antes lucravam com a mão de obra barata asiática e portanto apoiavam o partido Democrata para manter o mercado mundial estável, migraram cada vez mais para apoiar Trump, agora que a China ameaça seus monopólios tecnológicos com suas próprias inovações. A virada é liderada por “outsiders”, bilionários com menos contratos governamentais, como Elon Musk e Peter Thiel, que numa cruzada contra o “Estado Profundo” na verdade destroem a democracia e a fração burguesa oposta, incluindo acionistas das Grande 6 (Amazon, Google, Meta, Nvidia, Apple e Microsoft), cujas empresas estão mais entranhadas ao Estado e possuem mais interesses em manter o status quo, como o liberal Bill Gates. Os conservadores do Partido Republicado ganharam a disputa entre os capitalistas e colocaram neofascistas para dirigir os EUA com o plano de redesenhar o mercado internacional e a ordem mundial para recuperar suas taxas de lucro.
Sintoma da crise estrutural é a crise de hegemonia estadunidense. Já está em curso uma ultrapassagem geoeconômica da China, combinada com uma rivalidade geopolítica importante. Dentro das regras da globalização neoliberal, a economia planificada chinesa começou a ganhar o jogo, então os EUA resolveram mudar as regras. Seu projeto é a destruição da atual ordem internacional constituída desde o fim da II Guerra Mundial e consolidada com a dissolução da URSS, por eles mesmo, para erigir uma nova ordem mundial.
Em dezembro de 2025 foi divulgado o documento de doutrina de segurança nacional dos EUA, que explicita sem disfarces a política em curso: não há menções a direitos humanos, políticas de diversidade são tratadas como ameaça à nação, declara-se o fim da imigração em massa e rejeita-se a agenda climática, vistos como “ideologias” que enfraqueceram o Ocidente. O texto defende a “paz pela força”. A nova doutrina internacional alega estar corrigindo o erro de percurso que os EUA tomou desde o fim da Guerra Fria, busca dividir o fardo de defender a ordem global com aliados regionais e incentiva que cada Estado-Nação aja segundo seus próprios interesses.
Vivemos um período similar à Guerra Fria, no que diz respeito à partilha do mundo em áreas de influência das principais potências econômicas e militares. Duas potências mundiais com disputas agressivas em todas as dimensões, ainda buscam evitar um conflito militar direto, que caso ocorra possui o potencial de destruição sem precedentes. Entretanto, o atual período comporta diferenças, não estamos “esfriando” após uma Guerra Mundial, estamos em um período de crescentes conflitos, com guerras múltiplas sendo travadas com novas armas e táticas, enquanto a atual potência hegemônica destrói a ordem que ela mesmo criou, dissolvendo o Direito Internacional e remodelando o mercado mundial. Para se recuperar da sua crise hegemônica, os EUA aposta em ultranacionalismo e operações militares pontuais ao invés de ocupações totais e diretas como na derrota no Vietnã e o fracasso no Iraque e Afeganistão. Enquanto do outro lado, a China aposta em continuar a guerra no plano econômico, mas direciona cada vez mais seu orçamento para os gastos militares. No entanto, há uma boa dose de imprevisibilidade que, considerando a história mundial e as guerras já vivenciadas, apresenta o potencial de uma guerra de mais amplas proporções.
Com essa instabilidade mundial e o enfraquecimento da Europa, há desdobramentos interessantes em países africanos, talvez uma nova de descolonização esteja se formando, principalmente na região do Sahel. Países como Níger, Mali, Burkina-faso e Senegal buscam nacionalizar multinacionais e expulsar bases e tropas militares francesas e EUA de seus territórios. Enquanto isso, o documento da nova doutrina internacional estadunidense menciona a África apenas como espaço para exploração dos recursos naturais com capital estrangeiro para “desenvolver” os países de forma atrelada ao dólar, a fim de fortalecer sua posição como moeda internacional.
Trump promete retirar o assim chamado Oriente Médio como o ponto central de sua política externa, trazendo estabilidade para região, respeitando as monarquias arábes, priorizando a segurança de Israel e a “paz” em Gaza. Porém, durante seus mandatos, ordenou bombardeios nas instalações nucleares iranianas, já na linha de operação militares pontuais, similar ao ataque de decapitação na Venezuela, os EUA assassinaram o general Soleimani, da Guarda Revolucionária Iraniana, através de um ataque de drone, enquanto ele estava no Iraque. Ou seja, mais que capturar, Trump executou extrajudicialmente um quadro de um país enquanto ele estava em outro país. Atualmente o Irã está sendo abalado por protestos massivos devido ao aumento do custo de vida e da insatisfação com o regime dos Aiatolás. Tais manifestações vêm sofrendo brutal repressão do regime, ao mesmo tempo que são apoiadas de fora para dentro pelos EUA. Há inclusive, neste momento, um deslocamento de forças navais estadunidenses para a região com consequências ainda imprevistas, mas que certamente já contribuem para o agravamento da situação.
Quanto à Ásia, os EUA passa a concentrar toda atenção à China como principal adversário a ser contido via alianças militares com Índia, Japão, Coreia do Sul e Austrália, principalmente para conter o avanço chinês sobre Taiwan e no Mar do Sul da China, pela posição estratégica que ocupam tanto industrial quanto militarmente. A China, por seu turno, reage buscando ampliar sua influência na região. Xi Jinping realizou uma verdadeira transformação na Comissão Militar Central do país, afastando generais de alta patente e com longa tradição nas forças armadas do país deste órgão, que reúne o controle sobre todas as forças militares. Os resultados disso ainda são incertos, mas indicam que a China está movendo a sua máquina de guerra em alguma direção.
Já no “Hemisfério Ocidental”, como o documento chama as Américas, a doutrina Monroe é atualizada com o chamado “Corolário Trump”, também sendo chamado de Doutrina Donroe, que prevê ampliar governos aliados, bloquear a influência das potências rivais do “outro” hemisfério em áreas estratégicas e construir um “Domo Dourado” para defender os EUA contra ataques nucleares.
Na madrugada do 03 de Janeiro, os EUA mobilizaram cerca de 150 aeronaves na operação “Absolute resolve”, bombardearam diversos locais da Venezuela e causaram um blecaute na rede elétrica através de um ciberataque, enquanto uma equipe foi direto de helicóptero para a residência presidencial, estavam bem informados e como treinaram durante meses numa réplica idêntica da casa interceptaram Nicolás Maduro e Cilia Flores no trajeto entre o dormitório e o bunker para o qual tentavam fugir. Em menos de 3h depois da operação começar estavam em Nova York, onde Maduro se declarou um prisioneiro de guerra. Há rumores de que nesta operação foi utilizada uma arma sônica de guerra até então secreta que teve efeitos devastadores contra os soldados atingidos.
Ainda é preciso acompanhar até onde vai a pactuação do chavismo de Delcy Rodríguez e o governo Trump. O que já está nítido é que o controle da venda do petróleo venezuelano enfraquece países como Irã, China e sobretudo Cuba. E diminui a dependência dos EUA do petróleo arábe. Torna-se o primeiro ato prático da nova doutrina e tem um alcance importante na reconfiguração do controle de fontes energéticas fósseis e no tabuleiro geopolítico. E acrescenta mais uma página na história do neofascismo, que passa da ação política à ação militar, inédita até então, na América do Sul. Além da intervenção militar direta, Trump já atua abertamente para controlar os destinos políticos das nações latinoamericanas. Já atuou em favor de Javier Milei nas eleições legislativas argentinas e em Honduras. Consolidou uma invasão silenciosa no Panamá, obrigando-o a sair da Nova Rota da Seda chinesa e controlando este canal marítimo estratégico. E, certamente, não poupará esforços para influenciar eleitoralmente países que terão eleição esse ano como Brasil, Colômbia e Peru.
A única região elogiada pela nova doutrina, é a Europa. O neofacismo de Trump convoca os EUA a não ter vergonha da história comum com potências que iniciaram o colonialismo, exaltando-as pelos laços históricos, culturais e civilizacionais que compartilham. Embora sua atuação prática tenha demonstrado imensa agressividade contra dirigentes e países europeus como a França ou a Dinamarca. Comemora-se o surgimento dos partidos patrióticos que buscam resgatar os países europeus, mas condena-os por não se livrar das instituições internacionais, como a ONU, os imigrantes e se defender da Rússia, vendo o fim da guerra na Ucrânia como estratégico, para diminuir a dependência europeia da China. A União Europeia, filha legítima da globalização neoliberal, desde o Brexit vê ruir seus valores e objetivos. De um lado, a guerra na fronteira leste, de outro o desinvestimento estadunidense da OTAN e a ameaça de anexação de território europeu e, por fim, a corrosão da sua capacidade produtiva pelo avanço da industrialização chinesa. O velho e pequeno continente se mostra frágil diante do caos geopolítico. Ao mesmo tempo que movimentos de extrema-direita, abertamente neofascistas, surgem em cada um de seus países, minando por dentro toda a ordem constituída no pós-guerra.
Trump avança para subordinar os países à sua volta, como Canadá e Groenlândia. Isto tem um efeito devastador sobre o equilíbrio geopolítico do mundo, na medida em que ataca aliados históricos. Especialmente no que diz respeito à OTAN e ao conflito nas fronteiras entre Rússia e Europa, as ações de Trump bagunçam o tabuleiro. Na prática, mesmo justificando suas ações como defensivas frente ao perigo chinês e russo, Trump abre uma nova frente militar para a Europa ao ameaçar a anexação da Groenlândia, dividindo as forças europeias e facilitando assim uma resolução da Guerra na Ucrânia em favor das anexações russas. O interesse pela Groenlândia se explica tanto pela necessidade para a construção do Domo Dourado, quanto pela extração de petróleo, minérios e a as novas rotas marítimas abertas pelo degelo ocorrido pelo aquecimento global.
Estas são mudanças estruturais no tabuleiro geopolítico e tornam o mundo muito mais perigoso e instável. No entanto, não podem nos levar ao desespero e ao fatalismo. É preciso construir uma estratégia para enfrentar estes dilemas e disputar o futuro do planeta e da humanidade.
Do caos capitalista à esperança anticapitalista
Vivemos uma das conjunturas mais desafiadoras em muitas décadas. O imperialismo, o fascismo e a guerra emergem como forças poderosas da violência capitalista. Quanto mais elas se desenvolvem, semeiam também resistências, mobilizações, organização popular e alternativas. A luta interimperialista também cria fissuras no sistema de dominação.
No dia 07 de Janeiro, na cidade de Mineápolis, do Estado de Minnesota, um agente da ICE – braço terrorista do Estado estadunidense que tem assassinado, sequestrado e torturado imigrantes, inclusive mulheres e crianças, afastando mães de seus filhos, sob a justificativa do controle migratório – atirou e matou uma cidadã, uma mulher branca chamada Renee Nicole Good, que estava de observadora legal, voluntária e oficialmente fiscalizando as ações da ICE. Esse caso aconteceu a menos de um quilômetro de distância de onde, 6 anos atrás, um policial branco matou sufocado um homem negro, o George Floyd. E ali ressurgem mobilizações multitudinárias que desafiam o poder de Trump. No seio destas mobilizações, agentes do ICE assassinaram mais um cidadão americano, o enfermeiro de UTI, Alex Pretti, o que ampliou a revolta e levou a substituição do chefe do ICE, Gregory Bovino, da missão nesta região.
A eleição de Mamdani em Nova York é mais um sintoma de que há resistências no coração do império. O DSA tem conseguido além de vitórias eleitorais mobilizar um processo nacional, especialmente em torno de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, que rodaram diversos estados dos EUA com manifestações anti Trump. Não há nada perdido! É preciso resistir e construir alternativas! Importante notar que a popularidade interna de Trump é baixa, mas como não há democracia real nos EUA, não é o povo quem decide as políticas, o Congresso não foi consultado sobre a Venezuela, e suas ações sofrem forte resistência. O ICE mesmo tem provocado pequenas batalhas campais todo dia em todo o país, com muitas pessoas sabotando suas ações, protegendo os imigrantes, e inclusive agora, pegando em armas, um dos rachas que reivindica o legado do Partido de Auto Defesa dos Panteras Negras.
A Nova Ordem Mundial conservadora de Trump piora o mundo, no entanto a ordem da globalização neoliberal foi quem nos trouxe até aqui, deixando em seu caminho as maiores desigualdades sociais que a humanidade já viu. Do outro lado, a China aposta em uma globalização alternativa via planificação capitalista, sob direção do partido comunista, que também desenvolve uma dinâmica imperialista, embora baseada em um perfil mais soft power. É preciso construir um campo socialista internacional, a partir das trabalhadoras e trabalhadores em todo o mundo, dentro dos países centrais e nas periferias do capitalismo para se contrapor ao sistema em nível global.
A luta contra as desigualdades e pela taxação dos super ricos, a luta contra a guerra, a luta contra a dependência das nações do capitalismo periférico, a resistência dos imigrantes, a luta por soberania nacional e autodeterminação, as lutas pela diversidade, a luta ecológica, tudo isso tende a emergir de forma diretamente proporcional aos ataques que apontam em sentido contrário. Alguns acham que tempos difíceis são para abaixar ou negociar nossas bandeiras, nós acreditamos que o futuro da humanidade e do planeta depende de uma alternativa global à barbárie capitalista. A esta alternativa damos o nome de ecossocialismo!
O Brasil pode cumprir um papel destacado nesse cenário. Lula conseguiu enfrentar bem a primeira onda de ataques de Trump, mas sabemos que é só o começo. É preciso mais! O Brasil pode liderar um polo de pacificação do mundo, de luta contra as desigualdades e a pobreza, de defesa da natureza, dos bens comuns e contra as mudanças climáticas. Reeleger Lula em 2026 é apenas um primeiro e importante passo neste sentido, mas certamente muito insuficiente diante dos desafios que se colocam. É preciso impor derrotas definitivas ao neofascismo no Brasil e isso passa por remobilizar o campo popular e oferecer horizontes alternativos à barbárie capitalista. Avançar em um projeto que supere nossas mazelas estruturais e posicione o país como um polo alternativo na América e na nova ordem global.
Quando as classes dominantes cogitam a guerra é porque a crise no sistema de dominação atingiu níveis alarmantes. A irracionalidade imperialista que se expressa através das guerras cria incertezas para o próprio regime de acumulação. Muitas vezes as guerras ajudam a parir revoluções. A Guerra Franco-Prussiana pariu a Comuna de Paris, a I Guerra pariu a Revolução Russa, bem como a II Guerra contribuiu para a Revolução Chinesa. Devemos fortalecer as lutas dos trabalhadores e oprimidos em escala nacional e conectá-las internacionalmente. Devemos nos preparar para tempos difíceis na luta por tempos melhores. Sem abdicar do futuro, sem abdicar do socialismo. Porque esta é a única alternativa factível que até hoje a humanidade construiu contra o capitalismo.
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