O Carnaval entre a fantasia e a desigualdade: a folia e o lugar em que a gente quer viver
Por Ivan Moraes
Eu gosto de dizer que o verdadeiro Carnaval se parece muito com o mundo que a gente quer construir. Autogestionado, popular, horizontal, misturado. Pé no chão, criativo, colorido, feliz. No meio do bloco, ninguém sabe quem é médica, engenheiro, gari, mecânica ou desempregado. No ruge-ruge da folia, todo mundo vira apenas gente. E, por alguns dias, quase sempre em fevereiro, parece que o amor dá conta do recado.
Parece.
Mas o Carnaval não suspende a realidade. Ele a expõe.
Também no Carnaval estão todas as questões que nos oprimem, que nos atravessam e que nos chamam para a luta. Se tudo é política, nos dias de Momo ela desfila sem maquiagem. As desigualdades históricas, os privilégios naturalizados e os vícios das disputas por poder aparecem com ainda mais nitidez, embalados por frevo, maracatu ou axé.
Onde quer que você esteja, observe. Repare na diferença entre quem acompanha os blocos e quem trabalha para que eles existam. Quem empurra carrinho de cerveja no sol do meio-dia, cata latinha no asfalto quente ou vende adereços para garantir o básico. Note quem tem banheiro, sombra e descanso — e quem não tem. O Carnaval mistura corpos, mas não dissolve hierarquias. Muitas vezes, só as torna mais visíveis.
Há política na cidade que você escolhe para brincar. Na festa que você decide frequentar. E até na fantasia que veste. Seguir uma troça de rua ou pagar caro por um camarote com open bar e artistas badalados não é apenas uma escolha individual ou econômica. É política urbana. Política cultural. Política de classe.
Mesmo nos territórios em que a tradição carnavalesca é mais forte, como Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, onde a maior parte da festa nasce da autogestão popular, o poder público não é coadjuvante. Ele organiza, autoriza, financia, fiscaliza. E, não raro, tenta capitalizar politicamente a alegria alheia. Em anos eleitorais, essa tentação costuma crescer.
É assim que surgem cenas constrangedoras, como a da governadora de Pernambuco que, em pré-campanha contra o prefeito do Recife, resolveu montar um palco colado ao que historicamente é organizado pelo município, numa disputa artificial por público. A lógica é simples: usar o Carnaval como vitrine política. O detalhe inconveniente é que esse palco custou caro, enquanto trabalhadores da Fundação de Cultura, responsáveis por viabilizar esses eventos, ainda não receberam o salário do mês de fevereiro.
Ou como o que ocorreu em Olinda, onde, às vésperas da folia, a cidade sequer estava minimamente organizada. Para agravar, reportagem da Marco Zero Conteúdo revelou indícios de superfaturamento que chegam a 1.000% em contratações do Carnaval passado. A festa é popular, mas o dinheiro nem sempre segue o mesmo caminho.
Quando entra em cena a força bruta do Estado, o padrão se repete. Não é novidade que a repressão tem alvo certo. Se no passado a Guarda Municipal do Recife chegou a recolher fantasias críticas ao prefeito da época, a Polícia Militar acumula episódios de violência direcionados, quase sempre, a blocos formados majoritariamente por gente negra e da classe trabalhadora. Até na folia, o controle não é distribuído de forma igual.
Ainda assim, sigo encantado. Brinco Carnaval desde que comecei a andar e continuo comovido com o que essa festa mobiliza. Mas é justamente por isso que penso no que precisaria mudar para que a vida fosse mais Carnaval no que ele tem de mais bonito — e menos Carnaval no que ele revela de mais cruel.
Imagino um poder público que organize o território da festa com cuidado, estrutura e respeito, sem sufocar a criação popular. Que compreenda o Carnaval como política cultural, econômica e social. Que enxergue valor no encontro entre turismo e manifestações centenárias, sem transformar tradição em mercadoria descartável.
No meu país Pernambuco, penso em uma política de desenvolvimento que trate o Carnaval como estratégia, não como exceção. Que fortaleça grupos da cultura popular durante todo o ano. Que incentive oficinas, criações, redes de economia solidária, trabalho e renda. Que faça da alegria um direito e não um privilégio sazonal.
Talvez seja isso. Fazer do Carnaval menos fuga e mais horizonte. E transformar a festa não em disfarce, mas em projeto de país.
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