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6 erros evitáveis em análises de conjuntura

Alguns elementos para pensar análises de conjuntura e construir ferramentas analíticas por um novo mundo.

Por Carlos Bittencourt

Ao começar a escrever esse texto, uma espécie de manual com algumas “dicas” sobre equívocos possíveis, pensei que conseguiria apontar para cada um dos 6 erros comuns em análises de conjuntura uma espécie de antídoto. Apesar de muitas vezes identificar esses erros escolhidos em diversas análises, tratá-los de forma normativa tornou o texto muito mais complexo e mais desafiador do que meramente apontá-los.

Análises de conjuntura tentam representar em forma mais ou menos sucinta o enquadramento de uma determinada tensão de forças, de período relativamente curto. Isso, ao contrário de torná-las mais simples, fazem delas uma das formas mais depuradas de análise. Expor as grandes linhas da luta de classes através de atores precisos, informações e estatísticas sociais e econômicas e uma dose de “psicologia” das lutas de classes. Identificar o que em meio ao lodaçal do cotidiano emerge como definidor das grandes linhas da história. Está aí o grande desafio desse tipo de análise.

Ferramenta para a ação. Assim como a geografia foi inventada para fazer a guerra, as análises de conjuntura alimentam a visão e o movimento estratégico. Isso não se reduz, é evidente, ao campo do materialismo histórico. As classes dominantes atingiram um nível extraordinário de monitoramento das dinâmicas históricas. Estudos de conjuntura especializados podem custar dezenas de milhares de dólares. Por isso, boas análises de conjuntura não podem ser apenas uma foto do presente conectada à causalidades pretéritas. Elas precisam perceber tendências de futuro.

Más análises de conjuntura podem desconectar tática e estratégia. Táticas e estratégias equivocadas também redundam em erro nas análises de conjuntura. Há uma relação dialética entre o que se espera do futuro e o que se busca revelar na situação presente. Não há objetividade/neutralidade puras nesse intento. Uma boa análise de conjuntura não pode seguir os passos de um certo cartógrafo num conto de Jorge Luís Borges¹, que ao tentar construir o mapa mais perfeito da sua cidade construiu outra cidade tal qual aquela. Uma análise de conjuntura não é a busca por um compilado completo de informações e dados, devem ser, como numa proposição de Walter Benjamin, “um salto de tigre” em direção à realidade, extraindo os “agoras” fundamentais para o futuro.

Por isso, o equívoco número 1 é tratar a realização de uma análise de conjuntura como um mero palpite. O segundo é o anacronismo. O terceiro tomar a parte pelo todo. O quarto confundir desejo com possibilidade. O quinto subsumir o social ao político e o sexto desconectar o nacional do internacional.

1- Palpite

 Algumas das análises de conjuntura que circulam são meros palpites. Esse talvez seja o equívoco mais evitável. Se você não dedicou algumas horas de estudo sobre elementos da conjuntura e se não leu outras análises que versam sobre o que pretende analisar, as chances de se estar produzindo um mero palpite são muito grandes. Esta não deve ser uma regra que desencoraja qualquer um a fazer análises de conjuntura. Ao contrário, é uma regra que encoraja a todos que assim querem a dedicarem tempo ao estudo e à realização de boas análises.

2- Anacronismo

O início do XVIII Brumário, de Marx, traz duas questões chaves para se pensar o anacronismo. A primeira é a de que a história não se repete. Essa é elementar e esse equívoco de ver possíveis repetições entre fatos históricos é plenamente evitável, apesar de, infelizmente, comum. Uma clássica é o PSOL está se tornando ou se tornará o PT. Isso é objetivamente impossível, entre uma série de outras coisas, por conta da existência mesma do PT na realidade política e social do país.

  A segunda  é que a memória e a tradição são partes constitutivas de todos os tempos contemporâneos que se tornaram passado e parte também das vontades coletivas que construíram futuro. Dessa forma parece um pouco misterioso, mas na  passagem seguinte isso se apresenta de forma inigualável.

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentarem-se nessa linguagem emprestada.²

Isso não quer dizer que o anacronismo não seja um erro objetivo, verificável e até constante em muitas análises de conjuntura. Em regra sua definição é nítida: julgar uma época passada com um olhar do presente ou atribuir ao presente características do passado ou expectativas de futuro. Isso, no entanto, não é tão simples quando se tem uma visão de história diacrônica e não apenas sincrônica. Walter Benjamin, no mesmo sentido de Marx torna complexa a questão:

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o actual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado.³

Então, não basta fugir do anacronismo bobo, precisamos construir uma visão de tempo-espaço dialética na análise conjuntura. Por exemplo, seria tolo dizer que a descoberta de trabalhadores em situação análoga à escravidão no campo brasileiro representariam a continuidade do modelo escravocrata, senhorial. A realidade é que o agronegócio brasileiro está conectado ao que há de mais moderno nas técnicas de exploração capitalista da natureza e do trabalho, subordinado à dinâmica financeira internacional e ao, mesmo tempo, se beneficia de relações de trabalho advindas do passado, mas não predominantes, para manter elevadas suas taxas de lucro.

3- Tomar a parte pelo todo

Esse é o famoso, “não existe racismo no Brasil porque meu vizinho negro ganha um alto salário como executivo de uma empresa.” É dar contornos universalizantes a experiências particulares. Isso pode tomar muitas formas. No Brasil, por exemplo, pode significar generalizar as condições do “sul maravilha” ao conjunto do país, abstraindo as realidades regionais. Mais uma vez, para uma boa análise não basta fugir do equívoco básico, é preciso refletir sobre a interação dialética entre o particular e o universal. O todo não é uma abstração, ele é um conjunto vivo de interação entre partes. O materialismo histórico sugere um método para produzir uma análise sintética dessa interação. Passa por colidir as noções gerais de população, sociedade, Estado com os conceitos elementares como mercadoria, classe social… desse movimento do geral pro específico e do específico pro geral, o objetivo é alcançar um “concreto pensado” que seja síntese de múltiplas determinações, unidade na diversidade. 

Pela aparência imediata e cotidiana é o Sol que gira em torno na Terra e não o contrário. Para fugir dos equívocos que a imediaticidade da visão do observador tende a impor, é necessário cruzar as visões instantâneas que só conseguem captar parte do todo, com análise socioeconômica, histórica e filosófica. Por esse motivo também que a análise não pode ser apenas um compêndio de fatos e dados, porque senão a eleição de um aspecto em detrimento de outro será mera opção subjetiva do autor.

Esse equívoco se desenvolve também por conta da predominância dos fundamentos pós-modernos de análises, que exaltam o fragmento em detrimento da totalidade. Daniel Bensaid, em “Os irredutíveis”, tritura essa visão:

Sem o sistema da língua, a palavra não teria sentido. Sem a coerência de um modo de produção, as relações sociais se reduziriam a um agregado ininteligível.4

4- Superestimar o subjetivo sobre o objetivo e vice e versa

Há duas características básicas nesse equívoco. O primeiro se relaciona com o equívoco anterior que é tomar seu universo subjetivo particular centro da formulação objetiva. O outro não se encontra exatamente na construção da análise, mas é um equívoco estratégico que contamina o olhar analítico e pode tanto subordinar o objetivo ao subjetivo, quanto o contrário. No primeiro caso tem-se um irrealismo completo, no segundo o fatalismo. Perry Anderson, no final de seu “Considerações sobre o marxismo ocidental”5, definiu muito bem como a maior parte do movimento trotskista incorreu no primeiro exemplo, superestimando sempre seu próprio potencial e sendo catastrofista quanto às capacidades das classes dominantes. A revolução estaria sempre à porta e as classes exploradas sempre a um passo da sublevação e as classes dominantes sempre à beira da crise e da bancarrota. Uma longa lista de greves e enfrentamentos marginais são apresentados como sintomas da emergência revolucionária.

Por outro lado, há aqueles que só veem a força do estático e do objetivo como superiores às potências das vontades coletivas e subjetividades. As análises de conjuntura emolduradas por essa visão trazem forte componente de conformismo, diluídos em muito dados e informações quantitativas que tendem a mostrar que as coisas seguirão como estão.

5- O social não se reduz no político

É verdade que é na política que se resolvem os conflitos de grupos e classes sociais. A política é um meio concentrado das contradições de uma sociedade e terreno no qual as diversas frações das classes sociais se colocam em luta. O Estado é um aparato no qual também se concentram muitos aspectos da luta pelo poder político e pela hegemonia, no entanto, também a política não se reduz ao Estado. 

É comum análises de conjuntura que se resumem à análises da política e às vezes, ainda mais limitadas, à análises apenas da política no Estado, o que Gramsci chamava de estatolatria. Uma análise de conjuntura sem o aspecto político, certamente é oca. Uma análise que reduz o social ao político erra, em primeiro lugar, porque a política não é reflexo imediato do social, incorpora mediações próprias. Em segundo lugar, especialmente em períodos de calmaria histórica, uma análise baseada apenas na política perde de vista os fenômenos que emergem de baixo pra cima das classes subalternizadas, que em geral têm uma representação política mais instável e menos permanente do que as classes dominantes, sem contar que sua representação no Estado é muito marginal.

Portanto, uma boa análise de conjuntura, que capte sinteticamente o movimento histórico, deve dar muita centralidade à análise do social e conectar sua análise sobre a política e especificamente sobre a política institucional, como fenômenos que atuam mutuamente interligados, mas que têm dinâmica própria. Nesse sentido, o “XVII Brumário…” segue sendo uma das mais completas e complexas análises de conjuntura.

6- O nacional não existe fora do internacional

É evidente que as nações e os Estados nacionais são estruturas fundamentais do capitalismo. O historiador Fernand Braudel chega a afirmar que sem o os Estado-nações o capitalismo não se constituiria. Portanto, não se trata de negar o aspecto nacional da análise. Na realidade, boa parte das análises de conjuntura são voltadas para a compreensão de uma determinada realidade nacional.

No entanto, a compreensão nacional descolada de uma compreensão internacional do sistema-mundo capitalista, está fadada a imputar a causas endógenas motivações que, na realidade, são exógenas. Em primeiro lugar, o sistema-mundo é formado por hierarquias internas e quanto mais subordinado for o país, maior a determinação externa de sua história. Em segundo lugar, os processos políticos e sociais, sejam das classes dominantes ou das classes subalternizadas, mantém sempre algum nível de diálogo e/ou emulação.

O melhor antídoto para esse equívoco analítico é o método e a compreensão do “desenvolvimento desigual e combinado” que articula, como o nome diz, essas desigualdades hierárquicas em diversos níveis e temporalidades com o processo cada vez mais intenso de articulação das dinâmicas nacionais em um capitalismo altamente globalizado.

 

Conclusão

Longe de buscar as fórmulas prontas ou um manual acabado, esse texto busca colocar problemas que devem ser resolvidos ao se realizar uma análise de conjuntura. Parte-se de erros comuns, muito facilmente identificáveis em uma série de tentativas de análises, para se colocar questões sobre sua solução. De forma nenhuma são soluções incontestáveis, muito menos dão conta de todas as dificuldades na formulação de uma boa análise de conjuntura. Que sirva de estímulo ao estudo e à elaboração para que, quem sabe, consigamos construir uma estratégia robusta, baseada numa análise realista, para a transformação desse mundo de barbárie e miséria que há séculos segue nos triturando sem cessar. Ao estudo e à luta!

 


1- Jorge Luís Borges – Do rigor na ciência em “O fazedor”, 1960.

2- Karl Marx – O XVIII Brumário de Luís Bomaparte. 1852. https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/index.htm

3- Walter Benjamin – Teses sobre o conceito de história. 1940.        encurtador.com.br/jsKQ6

4- Daniel Bensaïd – Os irredutíveis. 2008. Boitempo

5- Perry Anderson – Considerações sobre o marxismo ocidental. Brasiliense, 1989.

2 comentários em 6 erros evitáveis em análises de conjuntura

  1. Que texto excelente! Ótimas dicas pra qualificar nossas análises 👏👏👏

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