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Setorial Ecossocialista do PSOL apresenta pré-candidatura de Sônia Guajajara à presidência do Brasil

Sônia é indígena da Amazônia, coordenadora da APIB e filiada ao partido desde 2011

O Setorial Ecossocialista Paulo Piramba do Partido Socialismo e Liberdade apresentou oficialmente o nome de Sônia Bone Guajajara como pré-candidata à presidência do Brasil na manhã desta quinta-feira (31). Sônia é mulher indígena de luta da Amazônia, nascida no interior do Maranhão e um nome extremamente respeitado pelo conjunto dos movimentos sociais do país. Coordenadora executiva da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a pré-candidata é nome de consenso praticamente indiscutível dentro do movimento indígena e não virá ao partido apenas para disputar eleição, está filiada ao PSOL desde 2011.

A “Carta por uma candidatura indígena, anticapitalista e ecossocialista” foi publicada no site http://www.518anosdepois.com e está aberta para assinaturas de apoiadores. O nome do site faz menção ao fato de que, exatamente 518 anos após a invasão europeia, o Brasil tem a chance de ter sua primeira candidatura indígena na história. Na carta, Sônia destaca de forma nítida ser necessário para o país:

“arrancar das mãos das corporações o controle das decisões políticas e da produção econômica, reformular desde a matriz energética até os nossos valores, descolonizar a vida (…) abrir caminho para a sociedade da felicidade e do amor, da justiça, do bem-viver e do reencontro com o restante da natureza em oposição à distopia de terra arrasada a que o capitalismo nos está conduzindo”

Sônia Guajajara defende a ideia de que a contradição capital-natureza é estruturante em nossa sociedade e por isso se reivindica ecossocialista. Realiza contundente crítica à direita tradicional e também ao modelo neoliberal desenvolvimentista realizado pelos governos PT nos seus 13 anos de governo. Os governos petistas e tucanos, aliados ao agronegócio, por décadas chacinaram índios por todo o país e isso imprimiu em Sônia e no movimento indígena caráter fortemente radical nos últimos anos.

Durante evento cultural em defesa da democracia, Sônia foi enfática ao indagar Lula, quando teve a palavra com microfone em mãos:

“Não deixe Dilma cometer com o rio Tapajós o mesmo erro que cometeu com Belo Monte. O mesmo que aconteceu com o rio Madeira e com o Rio Xingú. O povo indígena hoje está sofrendo as consequências. Esse modelo de desenvolvimento está errado!”.

Muito embora a maior parte de sua audiência naquele momento fosse extremamente lulista, Sônia foi ovacionada pelos presentes, com direito à coro de “Fora Kátia Abreu!” tomando todo o ginásio. Kátia Abreu é senadora do PMDB, principal representante do agronegócio na política nacional, e grande aliada dos governos PT nos últimos anos.

Partido radicalmente classista mas ainda muito marcado por uma direção predominantemente masculina, branca e acadêmica, Sônia Guajajara chega para mudar a cara do PSOL junto ao povo brasileiro sem abrir mão dos princípios anticapitalistas e revolucionários do partido. É um nome que pode alçar o PSOL à condição de organização popular, radical e finalmente à altura dos desafios impostos pela conjuntura de retrocessos que atravessamos.

 

Confira na íntegra a “Carta por uma candidatura indígena, anticapitalista e ecossocialista à presidência”:

 

“A Luta pela Mãe-Terra é a Mãe de Todas as Lutas”

Vivemos tempos duros, tempos de extremismo conservador, de ataques brutais aos direitos sociais e trabalhistas, de desmonte da educação, da saúde, da ciência e tecnologia e serviços públicos em geral. Tempos em que corruptos contumazes escapam ilesos para seguirem suas “carreiras” políticas e em que jovens da periferia são executados às centenas ou apodrecem em condições sub-humanas nos presídios.

Vivemos tempos em que a arte é perseguida, mas em que o trabalho escravo é tolerado, em que a especulação imobiliária avança sobre o lar dos mais pobres, sobre o Verde. Tempos em que querem pôr mordaça na escola, em que se pretende silenciar os tambores dos terreiros e em que os únicos sons audíveis sejam os das motosserras e das balas nas chacinas.

Vivemos tempos de destruição inédita da Natureza de que somos parte e que nos dá a Vida. Tempos em que nos inundam com um Belo Monte de mentiras, devastação e dor, em que a Samarco deixa sua marca no Rio Doce, em que a mineração nos arranca a RENCA. Tempos em que cada hectare desmatado, cada termelétrica ligada e cada poço de petróleo perfurado se traduzem – na linguagem do aquecimento global – em secas mais severas, furacões mais intensos e ondas de calor mortíferas. Ruim antes do golpe. Desastroso depois dele.

É uma sensação de fim de mundo!

Mas para parcela da nossa população, aquela que já habitava este pedaço de chão há milênios, esse fim de mundo vem de longe. Colonização, devastação, genocídio, escravidão, patriarcado, racismo, latifúndio, saqueio de riquezas sangraram a América originária e a África sequestrada desde então. E esse fim-de-mundo segue, como locomotiva/colheitadeira louca, ensandecida, atropelando e consumindo matas e rios, povos indígenas, negros e negras, sem-terra e sem-teto, LGBTs, jovens, trabalhadores e trabalhadoras, pessoas com deficiência. Segue rumo ao abismo do colapso ecológico, da falta d’água, da extinção de espécies, do sufocamento dos oceanos com plástico. Há que se dar um freio.

Os povos indígenas têm se colocado na linha de frente do combate a esse modelo insustentável, que fede a morte. E nada mais justo que reconhecermos esse papel na forma de uma candidatura à presidência nascida da raiz mais profunda deste território. Para defender um programa de justiça, igualdade, defesa dos direitos de cada um e cada uma, de cada povo, de cada espécie; dos direitos à água e à terra, dos direitos da água, da terra e da Terra. “Não há plano B”!

O “plano A” é arrancar das mãos das corporações o controle das decisões políticas e da produção econômica, reformular desde a matriz energética até os nossos valores, descolonizar a Vida. Significa abrir caminho para a sociedade da felicidade e do amor, da justiça, do bem-viver e do reencontro com o restante da natureza em oposição à distopia de terra arrasada a que o capitalismo nos está conduzindo.

Após cinco séculos de exploração, opressão, etnocídio, colonização, racismo, negação de direitos humanos, culturais, ambientais e territoriais de nossos povos originários e de origem africana para saciar a fome insaciável do capital e de seu modelo de desenvolvimento predatório, injusto e insustentável, temos a possibilidade de uma candidatura que represente, simbolize e verbalize não apenas a resistência a essa trágica histórica, mas, que aponte a perspectiva de uma sociedade que conjugue o ecossocialismo com o bem viver da cosmogonia indígena.

Por isso, apresentamos o nome da companheira Sônia Guajajara para encabeçar nossa chapa presidencial nas eleições do próximo ano.

Sonia Guajajara é hoje uma das maiores lideranças indígenas e ambientais do mundo. É coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e esteve à frente das principais lutas travadas, unificando mais de 240 etnias em torno de pautas que combatem os interesses dos setores mais poderosos da nossa sociedade. Foram inúmeros enfrentamentos no Congresso Nacional contra uma série de projetos e propostas de emendas constitucionais que visam retirar direitos duramente conquistados e contra os projetos neodesenvolvimentistas dos últimos governos – construção de barragens, estradas e hidrelétricas que ameaçam não apenas suas terras e modos de vida, mas todas as formas de vida.

Militante do PSOL filiada desde 2011, seus discursos ecoam pelo mundo dando visibilidade a uma realidade que o capitalismo costuma esconder. Fala de sociedades que têm na reciprocidade o fundamento de sua existência, sociedades que produzem modos de vida baseados no bem viver e ainda de pessoas que recusam ter suas vidas dirigidas pelo mercado. Falas que permitem às pessoas enxergarem na resistência indígena ao sistema uma possibilidade de ressignificar nossa própria sociedade porque desnaturaliza aquilo que anos de inculcação ideológica ocultou, e perceber que um mundo novo pode ser construído. Suas falas chocam as elites e aqueles que desacreditam na capacidade que o povo tem de propor mudanças e de se auto governar. 

Política também se faz com símbolos através dos quais enviamos mensagens a toda sociedade e uma campanha eleitoral é um momento privilegiado que o PSOL dispõe para enviar algumas mensagens. A próxima campanha pode simbolizar que os mais de 500 anos de luta de todos/as oprimidos/as não serão esquecidos. Pode mostrar para a sociedade que o PSOL é um partido que se coloca radicalmente ao lado dos/as que lutam contra todas as formas de opressão do capital. Apresentar Sonia Guajajara nesta campanha à presidência será inesquecível! 

O debate amplo, aberto, solidário e democrático e a decisão coletiva são a via que defendemos como a mais justa e segura para uma construção comum. Assim reconhecemos, na beleza que é a pluralidade do PSOL, não apenas a existência como o valor e a legitimidade de diversas pré-candidaturas no partido. Compõem nosso setorial ecossocialista diferentes correntes e militantes que também as constroem, mas ter Sonia como pré-candidata é um fato político extraordinário, de grande significado para a resistência indígena, negra e popular em nosso país, na América Latina e no Mundo. O Setorial Ecossocialista do PSOL se orgulha profundamente de apresentar seu nome como alternativa para a disputa em 2018.

 

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