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Entrevista | Michael Löwy opina sobre as eleições da França

Subverta.org entrevistou Michael Lowy, às vésperas das eleições francesas, que se encontram completamente indefinidas e podem levar os extremos do espectro político francês ao segundo turno. Löwy, nascido no Brasil, formado na USP e hoje radicado na França, é uma referência importante nas ciências sociais e um militante do ecossocialismo, tendo contribuído para a história da luta emancipatória no Brasil, na França e nas fileiras da IV Internacional.

Subverta: Agradecemos desde já a disponibilidade de conceder esta entrevista para o subverta.org. O que está em jogo, que você destacaria, nas eleições francesas? Você poderia nos descrever, brevemente, cada uma das candidaturas?

Muito brevemente: da direita para a esquerda. Temos uma candidata da extrema direita,  racista,  xenofóbica,  com traços autoritários e um passado fascista: Marine Le Pen.  Um candidato da direita “tradicional”, ultra-reacionário, neoliberal fanático e católico fundamentalista: François Fillon. Um candidato do “extremo centro”, ex-ministro de François Hollande, antigo banqueiro, homem do capital financeiro e do neoliberalismo: Emmanuel Macron. Um candidato social-democrata de esquerda, Benoit Hamon, com boas intenções mas prisioneiro do aparelho de seu partido (PS). Um candidato da esquerda radical,  anti-neoliberal, com um discurso nacionalista de esquerda: Jean-Luc Mélanchon. Uma candidata trotskista, do partido Lutte Ouvrière, a professora Nathalie Arthaud. E um candidato operário, anti-capitalista, anti-institucional: Philippe Poutou. Estes dois últimos são bem próximos sobre questões sociais mas Poutou inclui no seu programa a ecologia e o feminismo. Há outros candidatos pequenos, mas sem importância.

As sondagens atribuem uns 23% à Le Pen e Macron, uns 20% à Mélenchon e Fillon,  menos de 10% à Hamon, e cerca de 1% à Arthaud e Poutou. Marine Le Pen muito provavelmente irá ao segundo turno. Seu adversário pode ser Macron, Mélenchon ou Fillon. Os três ganhariam dela no segundo turno. Fillon com menor margem devido a seus problemas com a justiça (corrupção!). Esta é a primeira eleição desde 1969 em que a social-democracia e a direita “republicana” não estão na frente, e também a primeira em que a esquerda radical ganha de longe da social-democracia.

Subverta: A esquerda mundial tinha poucas esperanças nas eleições francesas, inclusive com possibilidades reais de eleição de Marine Le Pen e sua Frente Nacional. No entanto, criou-se uma grande expectativa acerca do crescimento e da possibilidade eleitoral de Mélenchon no pleito. Existe motivos para entusiasmo? Mélenchon se propõe a algum tipo de ruptura com a burguesia ou faria um governo de conciliação de classes? Qual seria o potencial desta construção para ampliar a mobilização da classe e capitanear um processo de mudanças no país?

Mélenchon sem dúvidas conseguiu suscitar um amplo movimento de apoio popular entusiasta.  É um personagem complexo, com muitas qualidades e grandes defeitos.  Entre as qualidades:  uma ruptura com o neoliberalismo, uma dura crítica ao social-liberalismo  (Hollande) e à política reacionária da União Europeia, um programa avançado de reformas “keynesianas de esquerda”, uma proposta de “planificação ecológica”.  E os defeitos:  nacionalismo francês – por exemplo, substituiu a Internacional pela Marselhesa e a bandeira vermelha pela tricolor – defesa da arma nuclear e da indústria militar francesa; estilo personalista, apresentando-se como salvador da pátria acima dos partidos; discurso “populista” se proclamando porta-voz do “povo” e não dos trabalhadores.  

A burguesia francesa, as forças de direita e do centro, os sociais-liberais (Hollande),  a mídia, detestam Mélanchon. O acusam de Jacobino, Chavista, e mesmo “revolucionário comunista”. As duas primeiras caracterizações são acertadas, a última (infelizmente) não…

Mélenchon se separou da Frente de Esquerda que o havia apoiado em 2012 e criou um movimento, França Insubmissa,  unicamente em torno de sua pessôa. Mas os partidos da Frente de Esquerda acabaram o apoiando, inclusive o PC Francês e “Ensemble!” (Juntos), onde se encontram muitos companheiros simpatizantes da Quarta (que saíram do NPA há alguns anos).

Não se pode excluir que Mélanchon vá ao segundo turno e neste caso ganhe as eleições, embora não seja a variável mais provável. É difícil prever o que faria no governo,  que compromissos faria para ter uma maioria no Parlamento, que concessões faria à União Europeia etc. Mas sem dúvida seria uma virada política importante na França e na Europa.

Subverta: De onde vem a força da esquerda radical? Há um processo mais amplo de lutas e mobilizações que escoram as candidaturas radicais? Quais grupos sociais sustentam as candidaturas de Philippe Poutou e Jean-Luc Mélenchon?

Houve, no ano passado, uma grande mobilização social com greves e massivas manifestações de rua, ocupações de empresas  etc., contra a “Lei Trabalho” neoliberal do governo Hollande-Valls. Apesar de ter a simpatia da grande maioria da população, o movimento foi derrotado. O apoio à Mélenchon é a expressão política da decepção com Hollande e da raiva de amplos setores populares contra o social-liberalismo. O apoio à Mélenchon vem de várias camadas mas ele é popular sobretudo na juventude.

Philippe Poutou,  o candidato do Novo Partido Anticapitalista –  que eu estou apoiando – é o único com um programa claramente anticapitalista, internacionalista,  feminista e ecossocialista. Ele  conseguiu se tornar bastante popular graças à um debate na televisão com os outros candidatos no qual ele foi o único a atacar o capitalismo e a denunciar o envolvimento com corrupção dos candidatos de direita  (Fillon e Le Pen). Há muita simpatia entre operários e juventude por Poutou, mas é pouco provável que isto se traduza num voto significativo nas eleições.

Subverta: Enfrentamos no Brasil uma grande crise institucional que tem como um de seus eixos principais o sistema político e o método de financiamento eleitoral, com graves denúncias acerca de recebimento de propinas não contabilizadas para candidatos da ordem que defendem os interesses de empreiteiras, bancos e grandes empresas. Como se dá o financiamento eleitoral na França? Considerando que um dos quatro candidatos com chances reais de eleição é um ex-banqueiro, de que forma a sociedade francesa enxerga essa situação?

O sistema eleitoral na França tem uma qualidade  “republicana”,  conquista de muitas lutas: cada candidato tem direito a um cartaz eleitoral na entrada dos centros de votação, e um tempo de participação na mídia igual. Se o candidato tiver um mínimo de 3% dos votos, o Estado subvenciona sua campanha eleitoral.

Macron, o banqueiro candidato, que defende o capital financeiro, conseguiu se projetar, menos por ter mais despesas do que os outros, mas porque conseguiu projetar uma imagem falsa e superficial de “modernidade”, “progresso”, “juventude”, “acima dos partidos”, “nem de esquerda nem de direita”. O apoio dele vem também do argumento que ele é quem tem mais chances de derrotar Marine Le Pen no segundo turno.

Subverta: Como a pauta ecológica aparece na eleição francesa? Que candidaturas, em alguma medida, enfatizam os temas ambientais e com qual abordagem? O debate sobre o ecossocialismo tem conseguido chegar ao debate eleitoral?

O único candidato que fala em ecossocialismo é o Poutou, embora não seja um tema central de sua campanha. Tanto Mélanchon como Hamon dão bastante peso à ecologia mas não falam de socialismo… Mélanchon, há uns três anos atrás, publicou um Manifesto ecossocialista, mas nesta campanha a palavra “socialismo” sumiu… Os candidatos de direita ignoram a ecologia. O Partido Verde decidiu retirar seu candidato e apoiar Hamon, com o qual assinaram um programa com medidas ecológicas avançadas.

Subverta: A União Européia está completa e irreversivelmente tomada pelo neoliberalismo? Qual é a abordagem que as candidaturas fazem desse tema?

Marine Le Pen denuncia a Europa em nome do nacionalismo francês, e da luta contra a imigração estrangeira. Fillon e Macron defendem sem restrições a União europeia neoliberal. Mélenchon critica duramente as políticas neoliberais da União Europeia e propõe renegociar os tratados europeus, com a ameaça de uma saída da França. Poutou – e também Nathalie Arthaud –  rejeitam a União Europeia neoliberal mas com uma posição internacionalista. Poutou propõe lutar junto com os trabalhadores dos outros países por uma outra Europa, social e ecológica.

Subverta: Quando países como Grécia e Espanha trouxeram para os holofotes o debate da resistência à Troika e a saída pela esquerda da União Europeia houve um grande apoio da esquerda mundial. No entanto, após o rompimento majoritariamente conservador no Reino Unido (Brexit), existe espaço para rediscutir este tema de uma perspectiva de esquerda?

A grande maioria da esquerda radical na Espanha, em Portugal e na Grécia não está propondo, no momento, a “saída pela esquerda” da União Europeia, embora não exclua esta possibilidade. Esta é também, com alguns matizes, a posição de Mélenchon.  Poutou não propõe uma saída isolada da França, mas um movimento de conjunto dos trabalhadores da Europa para acabar com a União Européia capitalista.

Subverta: O vendaval que empurra o anjo de Klee, na imagem do Walter Benjamin, parece que retomou força total. O que tens pensado sobre a escalada bélica, os enormes contingentes de refugiados e a reconstrução dos nacionalismos, com um ponto de apoio importante com a eleição de Trump? A França parece estar cada vez mais implicada, não?

Com efeito, a conjuntura tem favorecido a extrema direita nacionalista, xenófoba,  racista, que já governa em alguns países europeus como a Hungria e tem muita força na maioria dos outros. As exceções são os países periféricos: Grécia, Espanha e Portugal;  onde a extrema direita é fraca e a esquerda radical mobiliza o protesto anti-neoliberal. E na Inglaterra, apesar da vitória dos conservadores, o apoio da juventude e dos sindicalistas à Jeremy Corbyn é uma elemento de esperança. Para parafrasear Walter Benjamin: cada segundo é a porta estreita pela qual pode surgir à revolução…

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