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Compreender o Antropoceno e combater o Capitalismo, para além da terminologia

Por Alexandre Costa*

É cada vez mais evidente a incompatibilidade entre um sistema planetário (clima, biosfera, bioeoquímica) limitado, que funciona à base de fluxos (de matéria e energia) e ciclos (da água, do carbono, do nitrogênio etc.) e um sistema econômico expansionista, em cujo coração estão uma roda insana e crescente de extração-produção-consumo-descarte e a lógica míope da geração, concentração e acumulação de riqueza a curto prazo. Daí, a percepção de parcela cada vez maior da esquerda radical da gravidade e, em decorrência, da centralidade do colapso ecológico tem se ampliado. Isso é positivo, pois é preciso agregar forças sociais, políticas e ideológicas que estejam dispostas a jogar fora toda a água suja (o sistema econômico) a fim de que se salve o bebê (a civilização humana e, no limite, a vida no planeta como a conhecemos).

 

No entanto, a mistura da empolgação da descoberta da profunda crise ecológica (sim, estreitamente associada ao desenvolvimento capitalista nas últimas décadas) com a tradição de uma certa arrogância, pode trazer efeitos colaterais ruins, dentre eles, embarcar em falsas polêmicas ou em debates pouco produtivos. Um deles é a tentativa de contrapor ao termo “Antropoceno”, que veio se consolidando junto às Ciências da Terra especialmente na última década, o termo “Capitaloceno”. 

 

O reconhecimento da existência do “Antropoceno” tem sido construído como consenso científico, inclusive com a constituição de um Grupo de Trabalho de especialistas, conforme relatado pela revista científica Nature¹. Há vários anos, essa definição vem sendo construída, afinal, para ser aceito como uma subdivisão geológica formal, o Antropoceno precisa ter um “sinal geológico” significativamente grande, claro e distinto. O conceito, porém, transcende o aspecto geológico e tem desdobramentos inclusive para a política. No entanto, negá-lo ou substituí-lo a partir desses desdobramentos é um equívoco em diversos aspectos:

 

  1. A oposição de “Capitaloceno” a “Antropoceno” introduz uma confusão desnecessária na caracterização da estratificação geológica com caracterização sócio-econômica de um modo de produção. Os geólogos, no debate feito ao se estabelecer a necessidade de uma nova época (não era) geológica se baseiam em marcadores com permanência estratigráfica (substâncias estáveis, isótopos estáveis ou isótopos radioativos de vida muito longa, vestígios fósseis etc.).  Queiramos ou não populações animais (humanos e gado, pela abundância) podem deixar fósseis (ou de seus esqueletos ou até de suas pegadas), bem como tecnologias específicas podem deixar resíduos químicos ou físicos (resíduos de plástico e outras substâncias duráveis, plutônio dos testes nucleares e até tecnofósseis como impressões em futuras rochas sedimentares de circuitos integrados ou carcaças de outros equipamentos), mas um sistema econômico não.

 

  1. É um espantalho gigantesco achar que o uso do termo “Antropoceno” implica dizer que todos os “humanos” têm o mesmo peso no desequilíbrio ecológico. Nenhum cientista sério, de qualquer área, afirma isso, pelo contrário. Seguindo a mesma lógica do “Capitaloceno”, no limite teríamos então de abandonar os termos “mudanças climáticas antrópicas” e “aquecimento global antrópico” para usar “mudanças climáticas capitalistas” e “aquecimento global capitalista”, mas isso significaria a introdução de uma desnecessária polêmica de nomenclatura quando virtualmente todos os cientistas do clima entendem a profunda desigualdade de causa e efeito. “Os ricos respondem pelas emissões, os pobres arcam com os impactos” é algo tão reconhecido pelo conjunto da comunidade que tem servido inclusive como uma motivação moral para muitos desses cientistas se envolverem, com maior ou menor radicalidade, na luta política. O incentivo à radicalização desse entendimento político, a partir do aprofundamento da compreensão da desigualdade intrínseca à crise climática faz muito mais sentido do que uma eventual disputa terminológica. Também mais produtivo e construtivo é defender a comunidade de Ciência do Clima do negacionismo climático e dos movimentos anticiência em geral. Lógica semelhante deveria ser aplicada à comunidade de Geologia que investiga o chamado Antropoceno.

 

  1. Há ainda um debate sobre a demarcação do Antropoceno dentro da Geologia. A maioria do Grupo de Trabalho do Antropoceno defende que o mesmo seja definido a partir da Grande Aceleração (crescimento exponencial de meados do século XX). Mesmo este marco estando fortemente ligado à dinâmica que o capitalismo seguiu, é preciso reconhecer que a GA não é o início do Capitalismo, mas se vincula mais à globalização, financeirização, etc. e nesse caso a inviabilidade/imprecisão/inadequação de definir um “Globaloceno” ou “Finacioceno” dado o que expliquei no item 1 me parece evidente. Mas existem outros cientistas que defendem que o Antropoceno se inicia com as grandes navegações (ou seja, antes do capitalismo propriamente dito) e outros que falam até de um “Antropoceno Precoce” que, no limite, pela vinculação com a Agropecuária, colocaria em xeque até a definição de “Holoceno” como época geológica distinta das anteriores.

 

  1. É preciso reconhecer que, mesmo não sendo razoável para a maioria dos socialistas identificar o Stalinismo com o Socialismo, que parte do processo destrutivo da GA foi impulsionado também por uma economia – expansionista e predatória – cuja caracterização não é exatamente “capitalista” (No limite, não há consenso em torno de que a URSS seria um “Capitalismo de Estado” e há uma série de outras caracterizações, de “Estado Operário Burocratizado” a “Socialismo Real” etc.). Por sinal, o candidato mais forte a marcador do Antropoceno hoje – isótopos de Plutônio e derivados de decaimento radioativo – veio justamente da corrida armamentista entre URSS e EUA. Eu acredito que a maioria dos que fazem a crítica ecológica ao capitalismo reconhece Ecossocialismo como um modo de produção distinto (a partir do próprio coração das forças produtivas) daquilo que se pensava como Socialismo com base industrial no final do século XIX e início do século XX, mas por isso mesmo é preciso entender que a crítica precisa ir além do desastre capitalista. Mesmo um hipotético sistema de propriedade social baseado na indústria e com tendências expansionistas (por exemplo, que emergisse de uma eventual vitória revolucionária na Alemanha e outros países industrializados nos anos 1910) iria produzir, muito provavelmente, um conflito ecológico – senão no mesmo grau, pelo menos do mesmo tipo – com o meio natural, já que o metabolismo de ambos os sistemas seriam muito parecidos. Ao fim e ao cabo, seria muito ruim chamar esse cenário de “Socialoceno”.

  

  1. Do ponto de vista pragmático, há um risco de uma transposição do termo, pelos cientistas da sociedade para dentro das Ciências da Natureza, criar mais arestas do que pontes, quando o acordo justo é entender o porquê do estabelecimento da nomenclatura e, na análise social, trazer o sentido absolutamente necessário da crítica anticapitalista e da necessidade de superação desse sistema. A ideia de mudar tudo o que foi escrito sobre Crise Climática para “aquecimento global capitalista” traria mais incômodo, pelo sectarismo, arrogância e limitação epistemológica, do que ganho. Podemos ser mais inteligentes e atrair a comunidade de Geologia para uma “crítica anticapitalista do Antropoceno” ao invés de querer que a referida comunidade reformule uma terminologia construída após muitos anos de debate e investigação. Mesmo que o termo “Capitaloceno” estivesse 100% certo do ponto de vista teórico (e esperamos ter mostrado que está longe disso), a falta de capacidade de diálogo com o acúmulo das Ciências da Terra se mostra contraproducente.

 

  1. Por fim, no limite, se lembrarmos a contraposição de Bruno Latour² dos “humanos” aos “terranos”, o próprio “anthropo” é reconciliado como motor do colapso ecológico (incluindo aí não apenas os capitalistas, mas também os produtores e consumidores que, conscientemente ou não, querendo ou não, são copartícipes da dinâmica predatória). O pensar “capitalocenista” abre um flanco para que se deixe de fazer a disputa necessária junto a um proletariado que precisa não apenas negar a si mesmo como classe explorada, mas fundamentalmente como engrenagem de um sistema predatório. Ao trair o mundo “humano” e aderir ao lado “terrano”, é um sujeito que se disporia não apenas a expropriar de seus patrões os poços de petróleo e as minas de carvão e ferro, mas a selá-los e fechá-las. Daí, ao invés de ser uma proposição “mais radical” do que “Antropoceno”, “Capitaloceno” corre o risco de ser ao mesmo tempo um termo sectário e superficial, com potencial agitativo entre os círculos que já estão convencidos da necessidade de superação do capitalismo, mas insuficiente tanto como chave interpretativa mais profunda da realidade quanto como elemento de disputa mais amplo na sociedade.

 

Em suma, dialogar com as Ciências da Terra, entender a profundidade do colapso ecológico, debater alternativas ao sistema econômico vigente e principalmente para recompor o Sistema Terra, recuperando-o da ruptura metabólica, são tarefas urgentes. Nossa energia pode ser muito melhor dedicada a elas se evitarmos falsas polêmicas ou debates contraproducentes.

* Alexandre Costa, militante ecossocialista, Cientista do Clima, Prof. Titular da Universidade Estadual do Ceará

REFERÊNCIAS

1- SUBRAMANIAN, M. (2019): “Anthropocene now: influential panel votes to recognize Earth’s new epochAnthropocene now: influential panel votes to recognize Earth’s new epoch” https://www.nature.com/articles/d41586-019-01641-5

2- LATOUR, B.: “Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”. Palestra  proferida no Simpósio “Thinking the Anthropocene”, École d’Hautes Études en Sciences Sociales – Paris, 14 de Novembro de 2013. Disponível em Português em http://www.revistas.usp.br/ra/article/view/87702/pdf_1

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